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Com um saldo acumulado de 111,5 mil postos de trabalho fechados de janeiro a maio, ficando em terceiro no ranking nacional, conforme os dados mais recentes do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), Minas Gerais segue a tendência de aumento do desemprego causada pela pandemia do coronavírus.

Esse cenário, associado à proximidade do período eleitoral, deve fazer com que muitas das pessoas que ficaram sem emprego vejam nas campanhas políticas municipais uma alternativa, ainda que temporária, para ter uma atividade e renda.

É o que afirmam especialistas, líderes partidários e pré-candidatos ouvidos por O TEMPO. Segundo eles, não há como dissociar a alta de desemprego das campanhas políticas, e a tendência de uma maior procura das pessoas já vem sendo percebida nas ruas. Professor de economia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Josilmar Cordenonssi já dá como certo esse movimento, mas explica que a dinâmica acontecerá diferente em cada localidade.

“Nas cidades maiores e nos polos regionais, assim como nas capitais, os partidos são mais estruturados, já têm um pessoal (fixo), e vai haver uma menor necessidade de contratação de pessoas. Mas nas cidades menores, sem essa estrutura tão formal, há maiores chances de se conseguir emprego”, avaliou o especialista.

Ainda assim, segundo ele, dependendo da situação econômica da pessoa, será difícil usar a oportunidade para amenizar os efeitos causados pela queda de renda em virtude da pandemia. “A questão é que se trata de um bico provisório, por um ou dois meses, quando a campanha vai pegar mais. Além disso, nas cidades menores não tem nem chance de segundo turno, o que vai ser algo ainda mais curto. As pessoas não podem ter muita esperança, em termos de renda, em relação a essa oportunidade”, complementou Cordenonssi. De acordo com a Justiça Eleitoral, o segundo turno só acontece em cidades com mais de 200 mil habitantes.

“Você chega num posto de gasolina, no sinal de trânsito, e até mesmo nas redes sociais do partido a quantidade de pessoas procurando uma oportunidade de emprego é enorme”, explica o deputado federal Newton Cardoso Júnior, presidente do MDB em Minas. “Eu fui parado várias vezes por frentistas que me conhecem, em Contagem, Betim e mesmo em Belo Horizonte, dizendo: ‘Olha, deputado, será que você não consegue uma pontinha para mim?’ Então, temos percebido um aumento muito relevante desta demanda”, complementou.

Mesma percepção do deputado estadual João Vitor Xavier (Cidadania), pré-candidato à Prefeitura de Belo Horizonte, que vem observando a questão antes do início da pandemia.

“Tenho visto já há algum tempo, antes mesmo da pandemia, um aumento muito grande da demanda de pedidos por emprego, por estágio, oportunidade e encaminhamentos, o que é muito comum”, diz, explicando que não necessariamente os pedidos são referentes à participação na campanha eleitoral.

“Com o problema da pandemia, tenho percebido um desespero muito grande das pessoas em relação ao futuro, à perspectiva do que vai ser (após o fim da pandemia). Não necessariamente com associação aos pedidos de oportunidade em campanha, mas com essa incerteza ao futuro”, explicou o deputado.

Foco nas redes sociais

O aumento da demanda por trabalho nas campanhas eleitorais vem acompanhado de um movimento contrário e que não fecha a equação. Isso porque a mesma pandemia que provocou a alta do desemprego deve restringir as estruturas montadas pelos candidatos neste ano, refletindo-se em menos contratações.

“Vai haver uma menor demanda. A campanha deste ano vai ter menos contato físico, menos comícios e será mais via redes sociais. Mesmo nas cidades do interior, onde o corpo a corpo pode ser maior (dependendo de como esteja a pandemia até o início da campanha), em geral vai haver uma demanda menor para os trabalhadores”, explicou Josilmar Cordenonssi.

É o que deve acontecer, por exemplo, na campanha do deputado estadual Professor Wendel Mesquita (Solidariedade), pré-candidato à Prefeitura de Belo Horizonte. “Não vou fazer como antigamente, em que os candidatos colocavam equipes nas ruas e mobilizadores. Meu foco vai ser muito mais na questão virtual”, explicou, destacando que, até o momento, não percebeu um aumento de procura por oportunidades de trabalho.

Apesar da tendência, o também pré-candidato à prefeitura da capital Nilmário Miranda (PT) também não percebeu o aumento e diz que, no seu caso, há pessoas que o procuram para trabalhos voluntários. “Vejo muitas pessoas oferecendo apoio, falando ‘olha, me chama aí’, mas de forma voluntária. Nós temos muita militância”, explicou.

Novo perfil exigido

Para o presidente do PT em Minas, o deputado estadual Cristiano Silveira, haverá uma mudança no perfil de profissionais que costumam ser requisitados durante as campanhas. “Numa campanha você tem várias atividades que precisam ser desempenhadas, e uma delas é a contratação para as atividades de rua. Essa, possivelmente, deve ser reduzida. Por outro lado, você vai precisar mobilizar um conjunto de pessoas para ajudar na produção gráfica, além de conteúdos e de textos para as redes sociais”, avaliou.

O dirigente destaca que historicamente sempre houve muitos pedidos nas campanhas anteriores e acredita que isso deva se intensificar neste ano, mas reforça que, por ser uma disputa proporcional, os pedidos não têm chegado diretamente ao diretório estadual da sigla, mas é provável que estejam sendo encaminhados diretamente às instâncias municipais e aos pré-candidatos.

“As pessoas são contratadas pelo perfil profissional. Sabe fazer aquilo que precisamos? Tem conhecimento, capacidade e experiência? É esse o meu filtro”, explicou João Vitor Xavier (Cidadania), destacando que leva em consideração a capacitação e a qualidade do serviço profissional desempenhado.

Sobre os pedidos que vem recebendo, ele destaca que essas questões acabam ficando mais longe do candidato, que precisa focar na articulação política e no diálogo institucional. Mas diz que faz o encaminhamento para a análise do partido.

“Aquelas pessoas que me pedem, eu encaminho para o partido, para que as pessoas que estão na direção, colaborando com o processo de pré-campanha, terem à disposição e no momento certo avaliar”.

Informações O Tempo

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