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Há pessoas que não passam apenas pelas ruas de uma cidade; elas se misturam ao próprio chão, viram poeira de giz no quadro negro da história e suor sagrado na grama dos nossos campos. Há pessoas que, de tanto darem vida a um lugar, tornam-se, irremediavelmente, a própria cara dele. Antônio dos Santos Silva, o eterno e saudoso Ti Grilo, foi uma dessas raras molduras humanas, que em tempos de Copa do Mundo, quando somos consumidos pelo futebol, devemos e temos a obrigação de lembrar deste ícone do futebol barrosense.

Ele não nasceu sob o céu barrosense — nasceu em Recreio, na Zona da Mata, em um junho distante de 1936, ou seja, estaria aqui, ainda pisando nos gramados surrados com seus 90 anos de idade. E quando veio, veio com uma mala modesta, mas cheia de sonhos nas costuras, trazido pelo destino para trabalhar e, claro, para jogar futebol. Mal sabia o jovem de vinte e poucos anos que Barroso o adotaria de forma tão visceral. Aqui ele fincou raízes profundas: conheceu Dona Mandu, com quem teceu uma colcha de amor e companheirismo que atravessou mais de cinco décadas, frutificando filhos, netos e bisnetos. A grande árvore de Ti Grilo floresceu e deu frutos no solo da nossa terra.

Mas foi nos campos de futebol, e mais tarde no cimento mágico do piso do Ceclans, que Grilo gravou seu nome na alma do esporte local. Quem viveu os anos 80 e 90 lembra-se perfeitamente do trio de ouro: Maneca, Tim e Grilo. Juntos, conduziram brilhantemente o memorável Barrosinho, sob o olhar entusiasmado do então prefeito Baldonedo Napoleão. Grilo compreendia que a bola era mais do que um pedaço de couro cruzando o gramado; era uma ferramenta capaz de esculpir o caráter, de dar rumo e dignidade à juventude. Ao lado de Maneca e Tim, cuidou de centenas crianças e adolescentes com um entusiasmo que não cabia no peito. Para aqueles meninos da década de 90, ele não era apenas o técnico que ditava as táticas ou apitava o treino; era o “Ti Grilo”, uma figura paterna, firme e generosa, que ensinava que na vida, assim como no futebol, o mais importante é o respeito, a disciplina e a paixão pelo que se faz.

Condecorado com o Mérito Esportivo Silvestre Barbosa, a Câmara Municipal de Barroso, foi uma das poucas entidades a fazer jus ao homem que partiu da mesma forma que viveu: em silêncio, sem alarde, no melhor estilo Ti Grilo, que aos poucos vai se silenciando entre as esquinas da vida.
Aos 80 anos, o apito final soou para o Ti Grilo. O homem de olhar leve e sorriso acolhedor recolheu os cones do treino terreno e partiu para a arquibancada da eternidade. A dor da perda é inevitável, mas em Barroso a saudade não se veste de luto pesado; ela se transforma em gratidão poética. Grilo, em ppleno clima de Copa do Mundo, corre agora em um gramado perfeito, livre de dores, ao lado de velhos companheiros.

Assim, quando olharmos para as quadras, para os campos de várzea ou para o rosto dos veteranos que ainda hoje brilham no esporte da nossa cidade, veremos um pouco da semente que ele plantou. Nunca é tarde para dizer: descanse em paz, Ti Grilo. Mesmo nove anos depois da sua partida, naquele janeiro de 2017, lembramos e recordamos que sua dedicação, seu entusiasmo e sua simplicidade continuam vivos.
Você é, e sempre será, a verdadeira Cara de Barroso, homenagem que lhe rendemos em vida e que vale a pena repetir neste tempo onde o futebol vai para o mundo mais uma vez.

Obrigado por nos fazer gostar de futebol!

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