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Na fila do buffet minha amiga segurava um prato e suavemente com os dedos repicava a louça com as mãos como se fora um tamborim. Além do ritmo imposto, ela murmurava uma canção: “Sob o manto da mãe de Maria…”, bem timidamente, como alguém distraído prestes a degustar um jantar de casamento, ela cantarolava. Na sua frente, dias depois ela me contou, um senhor a olhava de cima embaixo e prestava mais atenção na canção dela do que na própria comida. Três, quatro sabores de salada depois, ela voltou a cantarolar: “Barroso, Barroso, teu calcário é de grande pureza…” O senhor, de acordo com ela, sorriu, a devorou de novo, e ficou sorrindo, não pelo iguaria, mas pela canção. Incomodada ela parou. Desistiu de cantar e foi se sentar. Degustou e de longe ficou encucada com aquele senhor sorridente. E ele não parava: sorria e a flertava durante todo o jantar. Ela então, se escondeu atrás do prato e de rabo de olho o vigiava, assustada com aquele senhor que nunca havia visto antes, apesar de estarem na mesma festa de casamento na capital.

E não deu outra! Foi só ela colocar os talheres na posição final que o senhor, de bigode grosso, atravessou quase todo o salão ao seu encontro. – Meu Deus, ele vai vir aqui! Pensou ela, se sentido culpada por algo que nem imaginava. E ele foi. O senhor de baixa estatura atravessou o salão da capital e parou em frente minha amiga. – A senhorita estava se servindo e cantando uma música, não estava? Perguntou ele. – Sim, estava. Respondeu ela que assustada emendou: – Na verdade é um hino de uma cidade do interior. Ele então sorriu de novo, mais uma vez e disse: – Eu sei, é o hino de Barroso, fui eu quem fiz. Naquele momento minha amiga entendeu os olhares e o sorriso do senhor e confirmou assustada com a cabeça: – Nossa! Que coincidência! E então ela explicou que eu, amigo de faculdade em Belo Horizonte, toda vez que chegava atrasado na sala de aula, entrava cantando o hino de Barroso, que se tornou também o hino da minha turma de jornalismo de 2006. – Barroso, Barroso, seu calcário é de grande pureza… todos cantavam em cada atraso, que por sinal não eram poucos. E quando formamos, cantamos juntos usando, não os pratos de buffet como tamborins, mas nossos capelos e canudos de formatura.

Esse episódio, ou algo parecido, aconteceu entre minha amiga belorizontina e o senhor Paulo Terra, autor não só do hino de Barroso, mas como do de Dores de Campos e Tiradentes. Episódios como esse nos deixaram mais amigos! No tempo em que o mundo ainda era mundo, senhor Paulo fazia questão, de pelo uma vez por semana, passar na redação do jornal no Beco do Formiguinha, sentar em um sofá preto desconfortável, e contar seus casos para nós jornalistas que ali trabalhávamos.

Em cada palavra, cada frase, além da serenidade, uma sugestão de pauta. E aos poucos, naqueles pequenos metros, a gente era consumido por uma aula de história e cultura. Envolvido com a fábrica, mas sempre crítico em relação à empresa, Paulo Terra nos convidava a uma viagem ao passado e relembrava nomes como Severino Pereira e tantos outros. Na educação, falava com entusiasmo de Georgina, Iracema, mas nunca se esquecia dos nomes atuais, que lutavam e lutam por uma cidade melhor. Me recordo que um dia, naquela redação, quando com sua bengala já se despedia, senhor Paulo foi pego pela chuva. Ele olhou a rua, a poltrona desconfortável, ele nunca o disse, mas eu sabia, e resolveu ficar mais um pouco. Ainda bem! Neste dia ele me falou da Ortópolis, da história do nascimento da entidade e mais tarde, conforme prometido, me apresentou documentos que foram enviados à Suíça. Documentos encabeçados por ele e que tinha como único motivo, de fato, termos uma cidade feliz, melhor, uma cidade perfeita, que ele sonhava e defendia. Mas ele não precisava me mostrar documentos. Eu não precisava de provas para saber que aquele “senhor” sempre lutou por nossa cidade. Quem parou para conversar com o senhor Paulo, que fosse por um minuto, teve a certeza de que ele sempre defendeu o nosso município. De fato, um verdadeiro amor por Barroso demonstrado em gestos simples naquele olhar sereno e atencioso. Esse aí em cima – de uma foto tirada no sofá desconfortável da redação no Beco do Formiguinha.

Senhor Paulo, sua coluna está aqui, hoje em especial, em forma de editorial. Seu artigo vai chegar a todo mundo e sua história jamais será esquecida por este jornal. Obrigado pela contribuição dada à comunicação barrosense ao longo destes quase dez anos aqui no Barroso EM DIA. Quando eu descer do carro na manhã deste sábado – 3 de abril – vou subir as poucas escadas da sua casa aqui no centro e colocar dentro da caixa dos Correios, como você exigia, o exemplar deste mês de abril de 2021, quando o jornal completa 15 anos, que fala da sua partida, mas que fala também da forma como você chegou a todos nós, barrosenses, através de textos, artigos, crônicas e poemas, algo tão raro hoje em dia.

Hoje a chuva não veio para o senhor ficar mais um pouco, hoje as únicas águas que caíram, foram lágrimas, de dor, de saber que lhe perdemos para essa doença traiçoeira. Hoje a educação tem seus pilares estremecidos. Hoje os que gostam de ler, como o senhor nos ensinou, estão chorando as novas páginas que serão escritas sem a sua presença. Hoje, senhor Paulo, a poesia ficou pobre porque o poeta partiu. Hoje, hoje poderia ser ontem. Jamais te esqueceremos e juntos vamos continuar lutando por uma cidade melhor, como o senhor sempre quis.

por Bruno Ferreira

1 comentário

  1. Bruno, obrigada pela sensibilidade de suas palavras carinhosas sobre meu pai. Ele amava escrever para o Barroso Em Dia!

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