Compartilhe:

EXALTAÇÃO ÀS RAÍZES: saiba por que trançar o cabelo não é só moda, mas uma forma genuína de se conectar com a ancestralidade.

Na África antiga os penteados eram usados para identificação, onde cada padrão desenhado tinha um significado diferente – literalmente uma marca sobre sua naturalidade (local em que nasceu), estado civil (casado, solteiro etc.), condição social, entre outros…

Tempos depois, já no Brasil, as variações desses penteados passam a ser as formas mais eficazes de lidar (veja bem, “lidar”) com o cabelo crespo, até então desassistido pela indústria de beleza e considerado fora do padrão (como é, ainda hoje). É muito importante frisar: a primeira linha de produtos exclusivos para os fios afro, sem composição química para alisar, foi lançada há apenas 6 anos e em movimentação recente – no início de 2010 – ganhamos estudos capazes de diferenciar as curvaturas do cabelo, sendo os crespos, como 3c, 4a, 4b e 4c e os cachos, como 2a, 2b, 2c, 3a, 3b.

Para uma parte considerável das mulheres negras, a relação de afeto com as tranças na infância, deu espaço à vergonha seguida de alisamentos dos fios e, posteriormente, da transição capilar (processo de cortar as partes quimicamente tratadas ou até mesmo raspar para deixar crescer os fios naturais).

Dada essa conscientização de assumir os fios naturais, a trança no Brasil virou símbolo de resistência, devido ao apagamento da cultura ancestral (pela demonização, e associado a criminalidade ou a cabelos sujos) e, com o tempo, foi compreendendo-se que trançar não “arruma” o cabelo, mas potencializa o que a pessoa é, exalta as raízes. Porém, invariavelmente, ter essa percepção é um longo processo de autoestima e autoaceitação em um País que canta “nêga do cabelo duro, qual é o pente que te penteia”. O preconceito que atravessa tais traços é o mesmo em qualquer lugar do Brasil, ainda que cidades como Salvador, na Bahia, carregam diariamente a herança cultural africana.

As tranças soltas (feitas com 3 mechas de cabelo) são as mais populares, que além de serem as mais usadas no dia a dia, as vezes se tornam penteados para eventos como casamentos e festas. Mas foi com Keylyany, 22 anos, trancista, que adota Kiki como nome (@dona_kriks), que aprendi a variedade de modelos de tranças, como rasteiras ou nagô, boxeadora, ghana braids, box braids (trança solta), twist (com duas mechas) e, também, crochet braids (tranças soltas feitas com agulha que entrelaça o cabelo sintético ao natural) e bantu knots (rolinhos de tranças). Trancistas são uma especialidade de cabeleireiras (cabeleireiras étnicas e, portanto, profissão regularizada) que fazem de sua renda trançar cabelos com modelos variados, não ficam só no convencional, no popular.

Vale registrar que o foco do texto é um, mas eu poderia escrever sobre a Kiki facilmente, pois sua convicção ao falar passa respeito fazendo as pessoas quererem ouvi-la, sem contar o seu engajamento com o projeto social para crianças de Barroso (@projetovivaoamoremacao) e seu apoio a produções independentes (@clayton_dix). Segundo Kiki, está entre as melhores partes do seu trabalho saber que pode mudar a confiança de mulheres (e meninas!) pretas, transformando a autoestima delas, como por exemplo ao terminar o penteado e receber um agradecimento porque a cliente está se sentindo empoderada e feliz. Valorizar e enaltecer a estética afro também não fica atrás como uma das satisfações do seu trabalho.

Kiki explicou sobre a apropriação “Não tem uma lista do que pode e o que não, cultura tem a ver com pertencimento. Seja uma trança, uma forma de linguagem, um cocar ou uma maquiagem, como acontece com a cultura japonesa. Se o uso esvazia o significado que tem para cultura de origem e fortalece o histórico de dominação entre grupos sociais (mas essa é outra conversa), existe um problema”. E complementou: “Quando começou esse ‘boom’ do uso da nagô, principalmente por meninas brancas, elas tinham como referência a cultura mandraka. Mas esse é um movimento da Geração Z, novo, e a nagô está aí há milhares de anos. O problema em si, não é o uso, mas ‘esquecer’ de onde veio… o erro está em agir como se fosse algo próprio da cultura deles”. Kiki frisou também sobre o ser ético: “Isso serve para tudo, a nossa existência atravessa a de outras pessoas, assim como as culturas. É aquela história ‘Você pode, mas você deve?’. É sempre importante refletir antes de incrementar algo no seu estilo”.

Você não só pode, como deve acessar a rede social do Instagram (@_kiki.trancas) para conferir sobre a Kiki; lá encontra-se todas as informações para checar seu trabalho e  todas as explicações e regrinhas para marcar um horário!

Em linhas finais, expresso que gostaria que Kiki fosse ouvida e alcançasse pessoas do mundo inteiro. Faz necessário que haja respeito por toda a sociedade porque atrás de qualquer tipo de cabelo e cor da pele, tem uma pessoa sensível e com uma beleza única que merece viver com toda dignidade e respeito.

por Ana R. Melo e Kiki Trancista (@_kiki.trancas).

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.