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Para nós, das gerações mais novas, pode parecer natural a presença de um grande número de religiosos na política do nosso país, especialmente nas últimas décadas, mas não foi sempre assim. Religiosamente falando, os assuntos do mundo eram, inclusive, evitados pelos religiosos mais fervorosos, que se dedicavam apenas aos assuntos de Deus.

No entanto, fatores históricos criaram um terreno propício para a entrada dos homens da bíblia nos assuntos públicos, por exemplo o surto de AIDS que explodiu no Brasil nos anos 1980. Nesse período o HIV era totalmente relacionado aos homossexuais e alguns grupos diziam que a doença era um castigo de Deus. Surgiu entre os evangélicos um sentimento de: ou a gente organiza esse país, ou os valores da família tradicional brasileira serão esquecidos. Parece familiar, né? Afinal de contas, temos Damares Alves como ministra, justamente, dos direitos humanos, da família e da mulher. A ministra do “meninas usam rosa, meninos usam azul”.

Fato é que com o passar dos anos observamos um aumento significativo dos evangélicos nos assuntos políticos, não somente ocupando cargos, mas influenciando a massa de fiéis. De acordo com documento, de 2019, no próprio site do Congresso Nacional, a bancada evangélica somava 195 parlamentares na Câmara dos Deputados e 8 senadores. Nomes como os de Marco Feliciano, Silas Malafaia, Edir Macedo e tantos outros se tornaram populares, e suas opiniões passaram a ser reforçadas, principalmente as contrárias às pautas sociais que concedem direitos às mulheres e à comunidade LGBTQIA+.

Mas, ressalto que essa não é uma regra, dentro do grupo dos evangélicos há os conservadores, normalmente ligados aos presbiterianos e assembleianos, mas há também uma ala mais progressista, defensora dos direitos humanos e das pautas mais ligadas à esquerda. Justamente, esse grupo nos mostra a importância do diálogo político tão desgastado no nosso país. A tendência da esquerda não religiosa é não dialogar com evangélicos, por acreditar que todos são conservadores, mas a verdade é que eles podem ser aliados importantes na luta política por mais direitos, nesse momento tão conturbado que vivemos no Brasil.

Conversando com uma evangélica não conservadora ficou evidente que dentro dos próprios grupos progressistas há preconceito contra evangélicos. Automaticamente, ao se identificar como evangélica, a pessoa passa a ser questionada sobre seus posicionamentos e mesmo após suas falas progressistas pairam no ar dúvidas sobre seu real envolvimento com a causa em debate. No meio universitário o estigma contra evangélicos também é bastante presente. Grupos que se dizem abertos a inclusão e ao debate, na realidade, se comportam de maneira oposta aos discursos e em muitas oportunidades excluem os evangélicos, até mesmos aqueles progressistas que defendem pautas em comum.

Além da exclusão em grupos progressistas, os evangélicos sofrem no próprio meio religioso ao serem excluídos das conversas e acabam se sentindo cada vez menos parte integrante da igreja de fato. Na prática, isso acaba afastando muitos evangélicos dos templos, justamente por respeito as discordâncias e pela falta de ligação com os discursos conservadores, geralmente reproduzidos nesses ambientes.

Com este texto não pretendemos colocar que evangélicos progressistas são melhores, ou que há algum problema em ser conservador. O que evidenciamos aqui, é a necessidade de incluir todos dentro do debate político progressista e de construir no país um cenário que vá contra as ideias retrógradas que propagam preconceitos. Mostrando, dessa forma, que existem caminhos para ser, ao mesmo tempo, evangélico e progressista.

Ser cristão é defender os oprimidos, respeitando as diferenças e buscando a salvação através do coração do próximo, que não deve ser chamado de irmão apenas por mera formalidade. Ser progressista é defender pautas de justiça social e lutar pelo direito universais que garantem alimento, educação e trabalho a todos…. Não há, portanto, dificuldade em ser evangélico no âmbito religioso e politicamente ser progressista. Afinal, lutar por pautas humanas é um objetivo comum entre ambos os grupos.

O texto acima foi escrito em conjunto com Júlia Beatriz Souza, graduanda em História pela UFSJ, professora e pesquisadora. Consultoria de Grazielly Almeida, graduada em Pedagogia pela UFSJ e mestranda em educação na mesma instituição.

por Túlio Henrique

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