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Meados de 2013. Estávamos há poucos dias do início da Copa das Confederações, que daria seu pontapé inicial em Brasília. Evento teste para a Copa do Mundo que aconteceria no Brasil depois de longos 64 anos. E o povo resolveu se rebelar. Principalmente jovens, tomaram as ruas do país contra o aumento de passagem de ônibus urbanos. Vinte centavos, diziam alguns.

Mas, de fato, a manifestação popular não se deu apenas pelo aumento do valor da tarifa de ônibus. Isto foi apenas o estopim para as manifestações, quase que totalmente ordeiras, onde jovens de todo o país criticavam o descaso com a população brasileira, principalmente pelos altos gastos com a Copa e Olimpíadas, que, a todo dia, aumentavam em milhões de milhões de reais do orçamento original.

Essa foi apenas uma das inúmeras manifestações populares em nosso país contra o sistema. “Diretas Já”, “Caras Pintadas”, dentre outras, mostram manifestações populares contra o establishment, palavra hoje tão em voga no vocabulário de muitos brasileiros. Mas, de maneira estranha, e fazendo relembrar a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, estão sendo convocadas manifestações para o próximo dia 7 de
setembro.

E o mais estranho, convocadas muito mais para defender uma pessoa, no caso, o Presidente Bolsonaro, do que para defesa de alguma ideia. O que vemos é uma convocação estranha de caminhoneiros, latifundiários e partidários de voto impresso e contra os Ministros do STF, mas sem qualquer base ou fundamento social. O que se quer, de fato, é a defesa da pessoa do Presidente, elegendo-se “inimigos” para combater, ainda que ele não exista.

Na “Marcha da Família”, o inimigo era o Comunismo. O Comunismo ainda continua sendo “inimigo” de alguns defensores do Presidente, mas não existe mais a Guerra Fria e um verdadeiro “perigo” de nos transformarmos em uma nova União Soviética, China ou Cuba. Então, foi preciso a “criação” de outros factóides, como a desconfiança do voto eletrônico e a competência, dignidade e caráter dos Ministros do STF. Factóide. Essa é a palavra. Criam-se “inimigos invisíveis” para justificar uma manifestação que só tem um interesse: a defesa de um homem, e não de suas idéias. Pobre povo brasileiro.

Mas o pior é que a oposição parece estar ainda mais perdida, ao convocar manifestação contra o Presidente, mas também sem qualquer comoção popular ou reivindicação justa. Vão manifestar contra o quê? O preço alto dos combustíveis? As centenas de milhares de mortos pela COVID? Sinceramente, não se mostra clara qual a intenção das manifestações. Ou seja, a manipulação de nosso povo para as possíveis manifestações de 7 de setembro é claríssima. Só não vê quem não quer.

Não sou a favor da liberação das armas. Acredito que a condução da política econômica não é a melhor. O meio-ambiente e os trabalhadores são tratados com descaso pelo atual governo. Mas, de modo algum, estou surpreso. Foi exatamente isso que nosso Presidente defendeu por toda a vida política. E a maioria da população quis essa condução política por 4 anos. Então, não há muito o que se questionar. O voto, no próximo ano, é que pode mudar a condução de nosso país, se essa for, de fato, a vontade da maioria. O que não dá é pra admitir essa divisão atual de nosso país. Você é contra ou a favor. Não existe meio termo. Tese e antítese. A síntese não serve mais. Ou você apoia o Presidente ou você é “esquerdista maldito” ou “petralha”.

Você não pode ser apenas consciente. Ou observador. Ou cidadão para decidir seu próprio caminho. Não é questão de ser esquerda ou direita; progressista ou conservador. É tentar estar no caminho certo e saber que a vontade da maioria é a que deve prevalecer, ainda que ela não seja a nossa e mesmo que se torne equívoca no futuro.

Democracia é isso: poder do povo, através da maioria. Manifestar contra o voto eletrônico é ser contra a democracia representativa, já que nossos Deputados, que são nossos representantes, já afastaram tal possibilidade, pelo menos por enquanto. Defender o porte de um fuzil como uma decisão particular, também não parece democrático, quando nossas leis e a maioria da população são contra tal situação (pelo menos foi isso o decidido no Referendo de 2005). Precisamos muito aprender com a história. Pena que esta seja cada dia mais desvalorizada.

É como disse Emília Viotti da Costa: “Um povo sem memória é um povo sem história. E um povo sem história está fadado a cometer, no presente e no futuro, os mesmos erros do passado.” Tomara que estas manifestações do dia 7 de setembro, se é que vão de fato ocorrer, não tragam consequências funestas como a Marcha da Família: Ditadura, morte e Censura.

Ditadura, nunca mais.

Por Gian Brandão

ERRATA: No último artigo do colunista Gian Brandão, o autor cita que a comercialização de armas no Brasil foi reprovada no Referendo de 2005. Porém, a maioria dos eleitores – 59 milhões – naquela ocasião, responderam que não eram contra o comércio de armas de fogo e munição no Brasil, ou seja, o não venceu. Assim, o colunista pede desculpas aos seus leitores pelo equívoco. Por razão e decisão da maioria,  o artigo 35 que previa a proibição foi excluído do Estatuto do Desarmamento (Lei nº 10.826/2003).

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