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Crueldade, logo cruel, muito cruel a notícia de que perdemos, também, Januário de Oliveira, o grande narrador dos anos 80 e 90!

E a gente, mais humilde, desprovidos de alguns reais, na época talvez cruzeiros mesmos, depois do golzinho no Beco do Cinema ou da Pelada na Cerâmica, corríamos, de quichute amarrado na canela, para a casa do primo rico só pra ver o Campeonato Carioca, que acredite você era tão, ou mais importante, que o Brasileirão, pelo menos para nós flamenguistas.

Faz segundos e não sai da minha cabeça os bordões de Januário, com seu sotaque forte e humor leve, fresco, do norte. De menino que venceu na vida, como a gente mesmo, vindo do interior. Muito cruel, muito cruel essa notícia!

Como não lembrar do Super Ézio?! Sem capa, o herói tricolor nos enchia de inveja! Caramba, os caras tinham um super-herói?! Sim, tinha e levava assinatura do Januário. Aquele mesmo que também dizia: “Tá lá um corpo estendido no chão”, tinha um jogador caído no chão, e acredite, a gente torcia pra isso acontecer só pra ouvir ele dizer de novo:  “Tá lá um corpo estendido no chão”… “Vai sair o primeiro carreto da noite”.

Caramba, perdemos Januário de Oliveira, eu e toda galera que ficava em pé ao lado trailler porque não tinha dinheiro pra comprar uma água sequer e ter o direito de ver o jogo sentado. Tempos difíceis! Mas no fim de semana a gente descontava, trabalhávamos a semana inteira pintando basculante, juntávamos pratinha e comprávamos pipoca de microondas! Daí já metia logo o pé na cadeira porque tínhamos direito de ver o Mengão… sentados! E não sobrava nenhum peruá. Bons tempos, apesar de nunca ter gostado daquela pipoca, sem sal, em todos os sentidos!

Ah Januário, foi-se aí em Natal, bem longe de Minas, um pedaço de todos nós que sonhamos em seguir carreira, que sonhamos em ser narrador e acredite… conseguimos. Vai aí também um abraço de bem longe, com direito a cheiro de pão de queijo, para toda a sua família. Taí o que a gente não queria! Não mesmo!

Obrigado Januário, vai ficar pra sempre o “Anjo Loiro da Gávea”, o atacante Túlio como “Tá, Té, Tí, Tó, Túlio…”, o Valdir Bigode como “matador de São Januário”, o atacante Valdeir (ex-Botafogo) como “The Flash”, o atacante Charles (Bahia e Flamengo) como “Príncipe Charles”, o volante e lateral Charles (Flamengo) como “Charles Guerreiro”.

Ah Januário, cadê aquela juventude? Cadê aquela pipoca, sem sal mesmo? Faz isso com a gente não?! Agora não, tá cedo, grita mais Super Ézio, eu aguento as gozações! Tem mais um carreto, a lá outro corpo estendido, cadê o que a gente queria? Caramba, como é a vida, o cara que fez nossos corações quase pararem, não conseguiu fazer com o que o dele continuasse batendo. Obrigado por toda a emoção e humor Januário! Obrigado!

Para a nova geração, relembro que Januário de Oliveira era radialista, locutor e narrador esportivo. Começou no Sul e decolou para o mundo na Rádio Nacional AM, depois na TVE-RJ (1982-1992) e TV Bandeirantes (1992-1997). Aposentou-se em 1998, quando começou a sofrer de diabetes e ficou cego de um olho. Ainda nesse mesmo ano, narrou algumas partidas da Copa do Mundo pela hoje extinta Rede Manchete. Recentemente foi lembrado pelo colega jornalista Erick Faria, da Tv Globo, em uma matéria fantástica e emocionante no Esporte Espetacular.

De espetáculo mesmo, mesmo, sinceramente: ficou o show de narração e bordões que nos deixou Januário de Oliveira. Essa faculdade da vida para qualquer um que se atreva aprender jornalismo esportivo. Só abra a boca para narrar se ler sobre Januário de Oliveira!

Porém, como o senhor mesmo diria: É disso que o povo gosta! Vida que segue… o gol não vai cessar.

Cruel, muito cruel essa notícia!

por Bruno Ferreira

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