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Ontem, ou então março de 2020, a gente, egoísta e ambicioso como sempre na história, queria tanta, mais tanta coisa, que não se dava conta de que já tinha tudo.

Me lembro como se fosse ontem, ou então naquele triste março: a gente sentou para almoçar, falou sobre a vida, lavou as vasilhas, ligou a TV e… e então nossas vidas nunca mais foram as mesmas e, lamentavelmente, acho que não mais serão. Mas a culpa não é e nem nunca será da TV!

Como é o mundo! Como é a vida! Como a vida é! Ontem a gente queria tudo. Hoje a gente só quer aquele ontem. Aquele simples ontem quando o número era zero.

Sim, hoje, neste frio junho de 21, pouco tempo depois daquelas águas de março, com a sensação de que lá se foram 10 anos, a gente, pelo menos aqui em casa, não quer mais nada: somente tudo antes daquele março. Trágico março que começou com um e hoje são 500, 500 mil!

A gente quer abraçar de manhã, quer se beijar, se despedir e ir para o trabalho. A gente só quer ver os amigos do trabalho e jogar conversa fora na cozinha cheia de gente, muita gente, apenas lutando por um gole de café. A gente quer muito trabalho, mas a gente quer ir para o trabalho. Aliás, a gente só quer sair para comprar pão como se fosse simplesmente ir comprar pão e não para uma guerra. Ah, a gente, como a gente quer bater na porta, em um dia de semana qualquer, visitar aquele amigo e dizer: – Saudade docê, caramba!

A gente quer pouco, muito pouco, mas que no fundo, bem no fundo, era muito e a gente achava que era pouco, muito pouco.

Só queremos beijar a mão da mãe e dizer “bença”. Queremos abraçá-la! Queremos dar os parabéns de verdade àquele amigo, mas abraçando mesmo, tirando ele do chão com força e segurando-o pela cintura! Queremos falar no ouvido, queremos ouvir aquele povo na fila, te encostando, queremos bocejar no meio da praça cheia, sem medo, sem nenhum medo! Queremos espirrar e ouvir: – Deus te cria! Isso, sem medo! A gente quer ver Deus, ir à igreja, orar, apertar a mão, as mãos! Rezar juntos! Quer sair para jogar bola, quer o abraço depois do gol! Quer sair para beber, comemorar qualquer coisa, qualquer, e abraçar de novo o amigo dizendo: – Saudade docê, seu filho da mãe! Pois é, que saudade daquele ontem! Da casa cheia, da piada sem graça, daquele parente que errou a mão, mas acertou seu coração. Que saudade de tanta coisa, tanta coisa!

Como é a vida, como é o mundo! Em dinheiro mesmo, quanto custava cada coisa dessas? Cada gesto desses?

Nada, né! Nada. E a gente não dava valor! Ou não dava o valor devido!

Pobre ser humano que ontem queria o hoje e agora, hoje, quer a todo momento o ontem!

És um projeto que não vem dando certo!

por Bruno Ferreira

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