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Desejo de um bêbado equilibrista ao se desvairar nas madrugadas perdidas, sejam elas entre rosários, bandeirantes e bairros deste Barro com sufixo e umas cachaças a mais, entre santos, como São José, Praia sem água salgada ou mesmo um buraco intitulado do Bicho.

Eis o desejo do equilibrista, seja nas avenidas ou praças carnavalescas. Eis: “Não que eu queira morrer, mas é que, como tenho que partir desta para talvez uma melhor, já sei como quero ir embora. Quero abrir os braços, no estilo Cristo Redentor, fechar os olhos e erguer a cabeça aos céus. Provável destino. Provável. Ao meu lado, amigos de longa data, novos e bons, a mulher dos meus sonhos e as dos meus pesadelos, minha família e todo o povo.

Isso! O povo, em toda a sua essência. Quero uma segunda-feira, mas de preferência e obrigação, uma de carnaval. Tem que ser entre cinco e seis, bem pela manhã, quando já estarei praticamente morto, menos enterrado. Antes do primeiro café e do último gole do santo.

Quero estar no meio da praça, da que leva nome religioso ou daquela de onde nenhum Salvador, seja da Silva ou de Souza, conseguirá me salvar. Quero que meu coração, por sinal valente, assim como os surdos e tamborins que já enxergam as cinzas, pare de bater. O único som a ecoar brejos, ladeiras abaixo e acima seja: ‘sonhar não custa nada…’. Mais nada. Pronto. Ponto.

Ao som de Padre Miguel, que nem mil velas e mil rezas poderão suportar e sucumbir. Sem cortejo, já bastam os blocos e a rabeira de uma mulher grande que atende por Geralda.

Quero ir logo, porque assim como você tenho que ir. E assim quero dar adeus a todos e a tudo. Da camisa rasgada à porta surrada na boca da Coronel, nossa Sapucaí por aí. Com os olhos lacrimejando e o coração palpitando… É assim que vou! Vou nessa, neste mundo de ilusão!”, dizia o bêbado aguardando e contando as horas para mais um carnaval.

por Bruno Ferreira

 

 

 

 

 

 

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