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PesColu dez2014Nessa quinzena gostaria de compartilhar algumas reflexões que, naturalmente, estarão além de um formalismo que as colunas anteriores talvez deixassem mais manifestas. Por outro lado não romperei com a narrativa do ensaísmo e tentarei ampliar a linguagem que coaduna com algumas reflexões quase pessoais sobre como os homens se reúnem para finalidades múltiplas. A decisão tomada para se escrever tomará por objetivo dois momentos: uma pela linguagem fotográfica e outra pela reflexão sobre o espaço público como lugar de múltiplas sociabilidades. A fotografia é uma paixão que carrego pelo motivo de haver nela possibilidades abstrativas, também a tradução de sentimentos conjunto aos sentidos que as variadas formas de composição da imagem podem trazer. Apesar de uma paixão, jamais me arrogarei a pretensão de ser nomeado “fotógrafo” (ser fotógrafo é mais do que portar uma câmera…), mas de um diletante que usa das imagens como ilustrações de uma série de reflexões prévias. Uma delas é o espaço público.

O espaço público é sair do núcleo de nossa intimidade. São nas “zonas comuns” as quais nos fazemos homens coletivos ou até mesmo homens no sentido latto do termo. Ainda que muitos intentem e insistam que cada um de nós é uma ilha e que o fim é o subjetivo, eu, particularmente, entendo que não. O homem é o seu coletivo com outros homens. As nossas características comuns são mais perceptíveis e necessárias do que o nosso pretenso individualismo.

ChinColu dez2014Nesse caminho, essa seção de fotos que intitulei “Popularis” que está disponível no Facebook na página Praeter Oculos (https://www.facebook.com/pages/Praeter-Oculos-Carrara/113571012114707?fref=ts) procura refletir como os homens se agrupam para diversas atividades. Nesse ensaio, especificamente, percebi que alguns garotos se reuniam na Praça do Forninho para uma famosa “pelada” de fim de tarde. Até então apenas uma prática que muitos adultos de hoje já faziam em suas infâncias. Algo rotineiro, comum. Mas em outro sentido, para quem estava com uma câmera na mão e algumas reflexões sobre como as crianças se organizam, havia a possibilidade de um espaço de criação de alguma forma de arte (ainda que eu não seja um artista). Essa atitude dos garotos me chamou a atenção. Principalmente por eles se reunirem depois do horário escolar. Assim, uma necessidade de se agruparem além das atividades formais: existe, assim, o “tempo das formalidades” e o “tempo da espontaneidade”, mas dois “tempos” em que se aprende algo.

O espaço público é diretamente proporcional ao direito à cidade. Isso mais especificamente significa que o uso de praças, quadras nos bairros, locais públicos destinados às práticas esportivas e até mesmo a rua nos dão subsídios para a reflexão de como as pessoas as usam e criam vínculos sociais e, da mesma forma, se relacionam com as áreas comuns dentro espaço urbano. Na sua aparência, são somente garotos, mas observando o linguajar informal deles, as suas formas de se subdividirem e possíveis chacotas mútuas há ali um elemento além do lúdico que resulta em trocas de conhecimentos que estão além do ensino formal.

Crianças quando se reúnem em uma praça para jogar futebol, um lugar aparentemente não destinado a essa prática, pode nos dizer que a finalidade está além das delimitações utilitaristas de “locais para um fim”. É também uma forma de nos dizer que a capacidade imaginativa das crianças vê possibilidades de divertimento além do local formal de uso. Por essa razão, enganam-se aqueles que depreciam qualquer possibilidade de desenvolvimento cognitivo nessas atividades. Não existem moleques à toa, pois a congregação entre seus iguais produz um aprendizado mais suave e tão necessário quanto outros, a exemplo da escola, esta que eu particularmente considero engessada. Aqueles, por outro lado, que partem da lógica da ocupação do tempo mais mecanizado, com uma suposta utilidade, talvez não entendam a preciosidade desses momentos que partilhamos. Há também uma necessidade de compartilhar vínculos em que se “ensina” e se “aprende” de forma mais espontânea. São relações de aprendizado horizontalizadas. Eles são mais do que úteis para a acumulação de múltiplas experiências que se somarão à existência daqueles que conjuntamente estão dividindo a brincadeira e o espaço. Portanto é concluso que ali também se formam homens. Em nosso tempo atual que as relações ficam cada vez mais virtualizadas e quase impessoais, crianças e adolescentes congregando-se para jogar uma pelada pode ser traduzido em relações de intelecto, corpo e espaço que serão tão úteis quanto a educação formal.

MetaColu dez2014Com essas fotografias decidi não colocar identificações pessoais, isto é, mostrar rostos, mas focar nas ações representativas que indicam que jogar futebol na praça alimenta a busca do homem pelo coletivo. São cenas significativas que vão além do ato de jogar, algumas no plano estático. Os pés descalços, as metas improvisadas, o chinelo que cede espaço ao pé desnudo, entre outras.  Brincar e jogar futebol estão além do mero prazer do lúdico, mas relações que são implícitas: o homem em busca do coletivo. Por outro lado, essas fotos deixam uma indicação para a necessidade de construção e manutenção de espaços seguros e específicos para que os homens possam desde contemplar o local à prática esportiva. Com locais de uso coletivo bem cuidados dão-se condições para que todos possam se congregar e agir coletivamente. É um lugar de reprodução social e também de educação.

O espaço público é um lugar onde o homem se cria existencialmente, partilha o seu tempo e se acumulam experiências com o outro. Em resumo, pode ser espaço da empatia e alteridade.

FornCol BolColu dez2014

Por Maurício Carrara 

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