De acordo com dados do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), repassados através da Associação Comercial, Industrial, Agropecuária e de Serviços de Barroso (ACIB), os números referentes à inadimplência na cidade são, no mínimo, alarmantes.
O levantamento, revelado com exclusividade pelo Barroso EM DIA, mostra que, somente nos últimos cinco anos (janeiro de 2012 a outubro de 2017), os bar-rosenses acumularam uma dívida de R$3.112.164,83. Para se ter uma ideia do tamanho do descrédito e do valor financeiro que deixa de girar na economia, só nestes últimos dez meses (janeiro de 2017 a outubro de 2017) foram mais de R$300 mil em dívidas inscritas no SPC, mais precisamente R$ 348.109,30, uma média de R$34 mil por mês.
Entre as empresas barrosenses que enfrentam os chamados “calotes” está uma comerciante central que prefere não revelar seu nome, nem o comércio. “Tenho comércio há mais de 20 anos e nos últimos cinco tenho enfrentado talvez a maior inadimplência do meu estabelecimento”, relata a lojista que quase todo mês faz novas inclusões de credores no SPC.
Mas nem todos agem da mesma forma. Segundo o Consultor na área comercial da ACIB, Ronam Moreira, nos últimos cinco anos, foram cerca de cinco mil inserções/negativações dos devedores em Barroso. Foram exatamente 5.280 inscrições, sendo que 4.281 conseguiram retirar seus nomes do SPC. “Mas é um valor relativamente baixo, visto que muitas empresas ainda deixam de inserir seus devedores no sistema do SPC”, relata o profissional graduado em Administração pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Porém, quando o assunto é o valor em reais, ele descreve que os números são alarmantes. “Em contrapartida, o valor em reais é altíssimo. São mais de R$3 milhões em dívidas que poderiam estar circulando na cidade”, diz Ronam, pós-graduando em Educação Financeira pela metodologia DSOP.
NÚMEROS NACIONAIS
Apesar de serem alarmantes, os números, de acordo com dados do SPC Brasil, não destoam do cenário nacional, em que quatro em cada dez pessoas, entre 18 e 95 anos, se encontram endividadas. “Os fatores que levam uma pessoa ao endividamento são muitos, mas todos se convergem para a falta de metas, a falta de sonhos. Ao não desenharmos os sonhos que queremos realizar em um espaço de curto, médio e longo prazo, não alocamos o nosso dinheiro para tal fim, e qualquer invasiva publicitária consome o nosso dinheiro, chegando ao cume de vivermos em um padrão de vida incompatível com os ganhos”, observa o profissional barrosense. “Traba-lhando esta visão de sonho calculado, todo este valor de inadimplentes na cidade poderia ser devidamente inserido no orçamento familiar e o montante circularia pela cidade, gerando empregos e renda para os munícipes”, diz.
SPC/SERASA
Outro grande problema enfrentado são as consequências das negativações. “A gente protesta, gasta com advogados, mas infelizmente a lei tem muitas brechas e os devedores ainda saem rindo da sua cara”, diz a lojista central. E faz sentido a crítica da comerciante. Com o nome inscrito no SPC, um devedor revelou à reportagem que não vai pagar sua dívida porque com o tempo ela vai caducar. “Em cinco anos não devo mais”, relata o devedor que, de acordo com profissionais da área, comete um grande engano na sua fala. Segundo as leis ligadas às dívidas financeiras, ne-nhuma dívida deixa de existir com o tempo. O que acontece na verdade é que uma coisa é a base de dados do SPC/SERASA e outra coisa é a base de dados do próprio banco ou instituição a quem você está devendo. De fato, a dívida prescreve em cinco anos. O que é um mito é a crença de que caducar significa que todas as dívidas são perdoadas e que tudo voltará ao normal no que tange ao seu crédito na praça. Embora seja verdade que a dívida prescreve em cinco anos, porque sai dos órgãos de proteção ao crédito, ela continua registrada no sistema daquela instituição a quem você deveu e não pagou, de modo que aquela mesma instituição não dará crédito a você novamente, mesmo suas dívidas tendo prescrito no SPC/SERASA. Isso significa que, ao contrário do que muitos pensam, o nome limpo por prescrição de dívida não tem o mesmo crédito que o nome limpo porque quitou as dívidas que tinha.
REDUÇÃO
Apesar dos números negativos na cidade e da forte crise que invade nosso município e nosso país, o número de brasileiros com contas em atraso e registrados nos cadastros de devedores caiu 0,41% em agosto, na comparação com o mesmo mês do ano passado. Este foi o sexto mês consecutivo em que há retração no volume de inadimplentes. De acordo com dados do SPC Brasil e da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), o país encerrou o último mês de agosto com 59,1 milhões de brasileiros com alguma conta em atraso e com o CPF restrito para contratar crédito ou fazer compras parceladas.
COBRANÇAS
Desde agosto deste ano a ACIB conta com um escritório de recuperação de crédito de São João del-Rei que está prestando serviço de cobranças em Barroso. E, segundo informações da Associação, o trabalho vem surtindo um efeito desejável e surpreendente na cidade. Através do serviço, que é oferecido gratuitamente para os associados, os devedores só pagam uma porcentagem dos juros acrescidos na dívida (legalmente), ou seja, só paga se receber e não desconta no valor devido, tem atingido números interessantes. “O cliente, em muitas das vezes, sabe da dívida e quer pagar, mas como passa um tempo e ninguém cobra, ele acaba ficando sem graça, não paga o que deve e não volta ao estabelecimento. É ruim para todos. Com a cobrança pelo escritório, pelo convênio da ACIB, estamos recebendo muita coisa antiga, está até surpreendendo. O cliente fica aliviado daquela prestação de anos atrás e volta a ter crédito”, diz Ronam sobre os trabalhos.
