Compartilhe:

Comecemos hoje com uma confissão, ou melhor, indagações de um aluno iniciante na compreensão das sociedades no seu campo de experiência (historicidade). Quando eu era (ainda conservo esse mesmo espírito) um iniciante na graduação de História, nas primeiras lições de Sociologia e Antropologia aplicada à História, uma coisa sempre me incomodava: como que os “fatos” e eventos possuem uma ligação entre seu passado e a conjuntura do presente? Entre outras interrogações, como um incipiente leitor de Karl Marx, Claude Lévi-Strauss, Fernand Braudel, Émile Durkheim, Marc Bloch entre tantos outros sociólogos, antropólogos e historiadores, queria saber em que medida os ditos “fatos históricos” possuíam uma base que sustentasse além da aparência do acontecido (uma suposta verdade). Em suma, via que aquilo que havia aprendido no ensino médio era de pouca valia e desejava superar o simplismo das “causas” e “consequências” na análise histórica. Aquelas indagações certamente não iriam me abandonar, ao contrário, me motivariam a compreender qualquer elemento em que houvessem grupos de indivíduos inseridos em uma trajetória no tempo. Mal eu sabia que tais reflexões seriam úteis hoje, numa verdadeira conjuntura de extremos políticos e de superficialidade generalizada. Na verdade queria eu evitar os excessos explosivos do movimento estudantil, com várias análises engessadas sobre a sociedade, e compreender coerentemente a condição política sem panacéias idealistas. No continuum do tempo, conservei essa vontade.

Hoje, aquelas indagações são mais que úteis e necessárias. No ano que se passou, 2014, e agora o início de 2015, as pessoas começaram a puxar um cabo de guerra nos ânimos políticos. Tudo simplificado num jogo de forças opostas. E nesse meio, um poço de lama destinado àquele em que o mais sujo será o perdedor: quem cairá nele? Porém a minha interrogação amadureceu, mas jamais completa e suficiente em si, e assiste de longe as forças concorrentes tentando puxar o seu oposto para a lama. Mas em que medida a minha reflexão tem em comum com isso? Creio que muitas: enquanto muitos usam da força, observo a natureza da força. Isso em termos simples: enquanto muitos olham para a beleza da casa, questiono a mim o que a sustenta.

Agora, para aqueles que têm por ciência a sociedade, nas suas diversidades temporais, seria questionar os lugares da “conjuntura” e da “estrutura”. A conjuntura seria aquilo que se manifesta o evento narrado, como: Pedro I voltando das províncias para o centro da então colônia de Portugal, quando se encontrava em São Paulo, deu o grito de independência do Brasil, às margens do rio Ipiranga, e declarou: “independência ou morte”. Tudo bem até aqui. Aprendemos isso na famosa decoreba das aulas de história na escola. Porém o que de fato deu e estruturou a Independência? Será que o evento possui apenas esse fato? Quais as condições sócio-temporais que culminam em um evento? Como a sociedade com traços do Antigo Regime se estruturava nos trópicos? Até que ponto elos são continuados e rompidos? Quando superamos a narração fatualista sobra uma base ampla e sólida para analisarmos. Essa chamamos de estrutura.

Essa pequena lição nos encaminha para que muitos equívocos possam ser evitados quando discutimos política nos dias de hoje. Afinal, queremos recortar um tempo, creditar a qualquer evento, positivo ou negativo, a razão de toda uma estrutura já tão viciada e corrompida? Evidente que não. Temos que evitar com o máximo cuidado não desviarmos o foco de uma estrutura para darmos crédito somente à conjuntura. Nada é tão novo que não esteja atado a um passado e, também, nada é tão velho ao ponto em que a ruptura seja extremamente inaudita. Além desse mote, temos o “puxão de orelha” que o antropólogo Lévi-Strauss deu aos historiadores; em outras palavras, enquanto se preocupam em voz passiva ou ativa como prova histórica na construção narrativa, existe a funcionalidade da linguagem num meio social que supera os meros joguetes da língua. Se a voz passiva ou ativa é a conjuntura; a linguagem enquanto função social, a estrutura.

No tempo dos extremos, pensamos que apenas hoje foram inventados todos os elementos deletérios da política, muitos alardeiam a saída de partido X ou Y do poder, acredita-se que são apenas nominais as nossas mazelas, conquanto elas são mais que substanciais. O nosso presentismo em nada nos ajudará para compreender essa doença moral. Trocaríamos conjunturas por conjunturas, cortaríamos a árvore que em semanas brotaria outra vez. Portanto, se formos optar por analisar algo, ou mesmo, criticá-lo, que a estrutura se sobreponha à conjuntura. Que não seja ela míope, mas que vejamos toda a profundidade de campo. Como outro exemplo: nossa casa está repleta de moscas nocivas, tomamos medidas para matá-las com diversas ferramentas, mas a causa primeira é um esgoto aberto no fundo de nossa casa que recebe todos nossos detritos. Se formos conjunturais, compraremos mata-moscas, porém se formos estruturais, consertaremos o esgoto. Em resumo, matar mosca por mosca, consumirá nossos recursos, tempo e nada adiantará se o esgoto ficar da mesma forma.

Assim são com os males que atingem a nossa atual política. Se acaso não atacarmos aquilo que se arrasta desde tempos imemoriáveis, ou não formos plenamente conscientes dele, a estrutura das desigualdades, da corrupção ou de qualquer coisa que impeça as pessoas de usarem do seu pleno direito diante dos governos, sem uma análise estrutural, continuaremos a matar moscas ad infinitum.

Por Maurício Carrara 

Comments are closed, but trackbacks and pingbacks are open.