Os anos, aos mais desatentos, podem parecer apenas uma reflexão pessoal ou até mesmo um sentido acumulativo que pesa sobre a progressiva fragilidade de um corpo. Mas longe ficou a vez em que a corrida do tempo era apenas uma percepção que sucessivamente se contava no ínterim de uma vida: entre historiadores e filósofos fica como o tempo existencial. Um tempo, talvez em relação a uma estrutura mais complexa, relativamente pequeno. Mas a sucessão dos anos e das “eras” bate em nossa porta a partir do momento que saímos de nossa casa. A história passa por nós como uma brisa que nos lembra toda vez que a trajetória humana é antes coletiva. Não a vemos pelo espectro ocular de forma óbvia, entretanto ela se situa de forma firme e, algumas vezes, assume a dianteira que se corporifica em monumentos nas cidades. Elencamos um presentismo (suposta superação de um passado) que é estruturalmente um futuro-presente de um passado. Significa, então, que é tão interessante alguém ou um período ao ponto de fazemos representações em marcos na cidade na expectativa que haja uma duração e solidificamos representativamente algo de um tempo.
Em outra via, se oportunamente ligamos a TV veremos que estátuas, monumentos diversos etc. são jogados para baixo em vários momentos. Isso é a transitividade do tempo, sistematicamente falando: do tempo histórico. Muitos se lembrarão da derrubada da estátua de Josef Stalin, um autocrata soviético, na Geórgia em 2008. Ou até mesmo quando foi posta ao chão a de Saddan Hussein com a invasão das tropas estadunidenses em 2003 ao Iraque. Mais recuado no tempo, em 1989, vemos a queda do Muro de Berlim que é simbólico no colapso da antiga União Soviética. Isso é muito mais do que derrubar aquilo que remete às coisas “ruins” de nossa história, porém algo muito mais significativo: como as sociedades se dinamizam e se relacionam com seu passado baseado nas demandas do seu presente. É a conjuntura que produz uma cover up sobre a estrutura. Analogicamente seria quase um ato de remover, abrir mão, delegar graus de importância e dispensar aquilo que socialmente perdeu sua função. É a experiência vivida reapropriada depositando uma nova esperança em uma nova conjuntura.
Talvez um monumento atual, exemplificando, finalizado em 2014, de como nos relacionamos com nosso passado, seja o relatório final da Comissão Nacional da Verdade, iniciada em 2012, no sentido de apurar os crimes e violações aos Direitos Humanos durante o período da ditadura militar no Brasil (1964-1985). Em princípio há uma dupla direção que podemos abstrair dessa iniciativa: a) revisar e tornar claros os bastidores das torturas e desaparecimentos desse período e punir os responsáveis (diretos e indiretos); b) fazer justiça aos torturados, perseguidos, exilados e aos familiares dos desaparecidos. Entretanto, o campo espectral é muito mais amplo, pois mobilizou não só inúmeras audiências públicas nas duas Câmaras Federais e em suas fragmentações estaduais, mas despertou a consciência de muitas cidades que têm arrolado em seu patrimônio estátuas, nomes de logradouros, escolas e vários outros tipos de espaços públicos com nome dos generais que assumiram a presidência da república, de forma indireta, durante os 20 anos de ditadura. Esse clima fervilhante, quase magmático, movimenta uma série de derrubadas, em 2014, de monumentos e derivados que recordam o período militar no Brasil. Além do mais, substituições sucessivas de nomes de escolas e de ruas que levam nomes que remetem à ditadura somam-se às quedas de estátuas.
Em Barroso não é diferente. Não que iniciamos a derrubada de monumentos dedicados aos ditadores generais, mas que todos os dias que passamos frente a eles trocamos olhares, hoje por sorte nossa inertes, com o bronze do Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, primeiro presidente da era da ditadura militar (1964-1967), talvez aquele que lançou as sementes da tortura, das perseguições sistemáticas e das mortes. Isso em plena Praça Sant’Ana! Em outro local, um bidimensional bronze, saudando aos que chegam a Barroso pela rodoviária, o General Emílio Garrastazu Médici, presidente de 1969 a 1974. O tempo presidencial de Médici, conjunto ao seu antecessor Marechal Artur da Costa e Silva (1967-1969), é concorde entre os historiadores especialistas no tema como um dos períodos mais sangrentos da ditadura militar por consolidar e institucionalizar (ilegalmente, é claro!) a prática da tortura. O viaduto da rodoviária de nossa cidade foi batizado em homenagem ao general.
Diante da prática de dar ao nosso presente um “chá de esquecimento” poderemos conclamar e questionar: barrosenses, ponhamos abaixo em nossa cidade aquilo que representa o período militar e seus presidentes? Questão difícil! Mas como estudante de história eu digo que não! É significativa e justificável a queda de monumentos além da troca de nomes por de outras pessoas. Um campo que cabe uma bela análise. É a prova que a história é sentida e vivenciada. Traz, além de tudo, a percepção que mudamos sobre aquilo que devemos significar ao ponto de erigir e substituir provas físicas em locais simbolicamente importantes de nossa cidade. Jamais faria apologia de um período tão sangrento e totalitário, do sentido arendtiano do termo, ao reprovar a derrubada e substituições de nomes. Minhas convicções políticas, teóricas e ideológicas não me permitiriam um aceite a esse tempo. Por outro lado, como um estudante da dinâmica das sociedades é no mínimo curioso e um objeto de análise, quiçá de estudos.
Apesar de todo simbolismo implícito e o desejo de esquecimento de experiências sociais traumáticas, a lembrança e a memória são dados da representação cultural. Substituir monumentos não apaga a estrutura do que ele significou. Esclarecimentos de forma pedagógica sobre nossa história são de fato relevantes e necessários. Não é apenas apresentar se os militares estavam certos ou errados, mas entender como se processam estruturas e as singularidades do momento sócio-político dos anos 1960-1980. Evidente que diante das convenções internacionais e de direitos humanos houve uma violação grotesca por parte do governo militar. Em outra via, não é só, também, usar da história como uma mestra da vida, ou seja, como um aprendizado infantil na qual ela nos dá lições morais. A qualquer historiador é fato que nada nas dinâmicas sociais se repete, mas são significadas e ressiginificadas: nada é igual ou repetível. Coisas em nosso campo de experiência sócio-cultural são apropriadas e reapropriadas sucessivamente. Programas de educação patrimonial são mais necessários do que retro escavadeiras ou marretas e cordas que põem abaixo monumentos.
É importante entender e estudar sem uma polarização non sense apoiada em um fatualismo narrativista que apenas é a tensão superficial da água. Daí a importância do professor de história que coloca em evidência aquilo que revanchismos e revisionismos tentam em vão trazer como “verdade”. Portanto há uma margem grande para o relativismo estéril. Não é apenas um conto, é a estruturação de nossa sociedade que está em jogo. Derrubar é dar provas de nossa incapacidade de superação e compreensão da história. Mas se a demanda popular julgar justa, que se ponha ao solo! Por outro lado insisto que jamais vamos apagar por meio de algo físico e superficial, eliminando locais que materializam um momento específico, aquilo que se consolida estruturalmente nas sociedades.
Por Maurício Alves Carrara

Comments are closed, but trackbacks and pingbacks are open.