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Com a finalidade de introdução gostaria de fazer um transporte aos tempos medievais. Contrário ao que recorrentemente se diz entre variados articuladores, de conservadores a progressistas, que a Idade Média, período da história que cronologicamente se coloca entre os anos de 476 a 1453, foi a “longa noite de mil anos”. Tal recorte histórico é padrão de referência e sempre associadoa todo e qualquer tipo de retrocesso, barbárie e ineficiência. Entretanto, entre os especialistas do tema sabe-se que o medievo de longe não foi o atraso da humanidade que correntemente se veicula, mas, antes, ela nos legou fundamentos políticos, intelectuais e econômicos que culminaram em nosso tempo atual. A Idade Média nem foi boa, nem ruim, porém um tempo como qualquer outro.

Nesse raciocínio, para esse texto, usemos um exemplo da Idade Média ocorrido no primeiro quarto do século XIII. Nos primeiros trinta anos dos anos de 1200, a parte Ocidental da Europa vivia um florescimento de novas percepções religiosas que contrastavam com outros mais antigos e tradicionais. Entre tais movimentos nasceram as ordens mendicantes (franciscanos e dominicanos). Em especial aos seguidores de Francisco de Assis (1182-1226) havia dois motes que se contrastavam: a) ire per mundum (ir pelo mundo) contra o b) fuga mundi(fuga do mundo). Esses dois ditos diziam respeito ao papel e atuação dessas novas ordens para o mundo europeu, em especial no terreno de pastoral da Igreja Católica Romana. Esses dois motes que citamos acima eram sobre a forma de atuação das Ordens entre as pessoas, seu ministério. Significava também um questionamento enquanto escolha de vida religiosa: permanecer no modelo tradicional recluso dos monges ou andar pelo mundo vivendo entre os homens exercendo a pastoral. Em suma, esses homens questionavam se a melhor forma de atuar como cristãos era se retirar no claustro e viver numa “torre de marfim” das abadias ou sair e conhecer a realidade dos homens levando-os conforto, boas palavras, o evangelho e conselho além de tudo conhecendo sobre suas realidades cotidianas. Os franciscanos decidiram por abandonar a vida contemplativa solitária para viver entre os homens e levar a eles a mensagem de vida cristã.

Porém como podemos abstrair um problema de quase 800 anos para os dias de hoje? Explano. O projeto fundamental desses medievais era atuar na cura animarum(cura das almas). Esta “cura das almas” era muito mais do que uma atuação espiritual ou meramente levar a mensagem eclesiástica aos fiéis, ela se fazia enquanto uma forma dos diversos bispados conhecerem a realidade dos membros de sua comunidade. Sabia-se, portanto, indo aos locais, cidades, campos e casas como se comportava a congregação laica, as necessidades locais, misérias, problemas etc. Com o nascimento dos mendicantes o olhar da Igreja acabou por ampliar e atender principalmente aos pobres. Isso também era mais do que um trabalho de cuidado do espírito. No medievo muitos problemas de ordem social que hoje são problemas das prefeituras e dos governos em geral eram preenchidos pela Igreja, como exemplo, hospitais, a educação, casa dos antes chamados inválidos, dos mendigos etc.

Nesse sentido, podemos concluir que a efetividade da Igreja se tornou mais prática saindo dos seus claustros e vivendo entre os homens comuns. Ela pôde assim conhecer cada realidade e suas necessidades reais. Ao partir dessa perspectiva podemos trazer para nossa realidade do século XXI na atuação de políticas públicas locais, das cidades aos bairros. Na Idade Média o poder público não era como hoje: antes se misturavam necessidades de governança com necessidades espirituais. Para nosso bem, acredito-me, hoje temos essa separação. Porém a questão entre o claustro e o pé na terra indo os locais e conhecendo-os ainda permanece enquanto uma necessidade.

Com isso, com a finalidade de conhecer os locais de nossa cidade, no ano de 2005 o então presidente da Câmara Municipal, o vereador Reinaldo Aparecida Fonseca (PSDB) propôs e foi aprovada a Resolução n° 146 de 09/junho/2005 que criou a “Câmara Itinerante” justamente com o objetivo de interação entre os vereadores e as diversas comunidades da cidade de Barroso. Mais do que um ato de deslocar, essa resolução contém em si o escopo de conhecer as realidades e necessidades de cada localidade municipal. A Câmara subtrai de sua sede às reuniões ordinárias para colocá-las na comunidade. Iniciativa que merece todo crédito e intencionava ampliar a participação popular em uma casa que é de suma importância para a compreensão das necessidades populares.

Entretanto a Câmara Itinerante ficou inativa desde 2012 até o presente ano. Para compreender melhor os motivos desse lapso, procurei para uma conversa visando esclarecimentos, o atual presidente da Câmara o vereador Edison José de Campos, o Zeca da Bicicletaria (DEM). Em nossa conversa ele me informou que a Câmara Itinerante funcionou por 8 anos de 2005 a 2012 sendo que todos os presidentes da casa desse período se preocuparam em efetivar a resolução. Sobre a sua parada, a partir de 2012, o vereador Edison disse que conforme a Resolução nº178 de 10 de março de 2008, artigo 1° parágrafo VI, aconteceu a suspensão das reuniões 4 meses antes das eleições municipais conforme o disposto legal. Contudo após o pleito e a retomada das atividades da Casa Legislativa no outro ano (2013) o atual presidente não soube informar quais eram os motivos reais, apesar de ter lamentado a inatividade, que os presidentes até então não levaram a Câmara Itinerante à plenitude de suas funções, cessando, nos anos de 2013 e 2014. Em continuidade à conversa o interroguei sobre as possibilidades de volta e ele informou que ela retomará suas atividades agora no mês de maio, na segunda-feira dia 04/05 às 19 horas no bairro João Bedeschi. Esse, portanto reitera o vereador Zeca, é uma iniciativa ótima, pois muitos cidadãos se sentem acanhados em ir à Câmara Municipal e nos seus bairros é a oportunidade de manifestar as necessidades reais de sua comunidade.

Vale, portanto, ressaltar que além de ser uma forma de conhecer as realidades locais, demandas e problemas a Câmara Itinerante é um poderoso instrumento de participação local e também trazer e dar voz às consciências dos moradores de cada bairro. Aqueles que estão diariamente nos bairros são aquele que melhor podem levantar necessidades do local. A Câmara Itinerante, além de tudo, é um instrumento de pressionar o Executivo em uma agenda para cada bairro no sentido de melhorias. A Câmara Itinerante é um poderoso instrumento de dinamização, porém ela não deve se limitar a ouvir ou saber que existem demandas, mas trazer e fortalecer os elos coletivos dos bairros sobressaindo a ações meramente individualizadas e atomizadas. Como exemplo, fomentar as associações de bairro além das iniciativas concentradas em indivíduos. A organização coletiva é a expressão das necessidades comuns.

 

Por Maurício Carrara 

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