Incitados pela pergunta sobre a sua identidade, Barroso recebe o projeto “Cidades e Identidades Culturais” desenvolvido pelo Instituto Artivisão de Belo Horizonte como parte aprovada pela Lei de Incentivo à Cultura do Estado de Minas Gerais. Ele está sendo realizado em três módulos desde o dia 18 de outubro, seguido dos dias 14 e 15 de novembro e mais um a se realizar nos dias 28 e 29 desse mês. À primeira vista são módulos que buscam questionar qual é de fato a identidade de Barroso, mas, com um olhar mais detido, o projeto é muito mais do que localizar ou trazer a “identidade barrosense” de forma objetal, isto é, nomear e materializar um possível (ou possíveis) ícone à questão. Essas ações têm uma base ampla quanto aos temas tratados nesses encontros: variaram desde as percepções teóricas do que poderia vir a ser a “identidade”, noções sobre patrimônio até a identificação da cidade em suas manifestações culturais das mais diversas naturezas. Um projeto sem nenhuma dúvida inovador e incitante para o município que em resumo seria uma proposta de despertar a autopercepção dos cidadãos enquanto parte da comunidade. Portanto, algo mais que necessário à nossa querida Barroso. E, em uma apreciação pessoal, confesso que tenho o prazer de participar.
Como as formas de entendimento do humano não são unilaterais, sempre temos uma gama muito ampla de visões de mundo e sentidos para nossas agregações sociais, evidentemente achei necessário compreender parcialmente o que significa “identidade” dentro dos seus muitos “entretantos”. E minha compreensão do termo não visa um conceito final ou acabado. Para entender, primeiro parto de minha formação acadêmica, depois como cidadão de “umbigo enterrado” nessa terra, como diziam aqueles de nossas gerações precedentes. Além do mais, para aqueles que não compreenderam o título da coluna, crio o espaço para o esclarecimento. Em primeiro lugar, escolhi o termo “colcha de retalhos” com um propósito claro: a identidade é uma construção quase ficcional em que, nas configurações de nosso tempo, significa um amontoado de outras partes que se juntam para o fim. Em suma, comunidades que se imaginam a partir de múltiplas coisas e questões. Esse termo é carregado de muitos sentidos: uma colcha de retalhos é um emaranhado de partes, aparentemente sem sentido, que se somam para construir um objeto final. Há na colcha, quando se finaliza, montada a partir de peças supostamente desconexas, uma razão de ser. Via quando criança minha bisavó selecionando os pontos, os retalhos e ela imaginando o que viria a ser o resultado final. Quando minha bisavó se lançava na construção de uma “colcha de retalhos” ela ajuntava recortes de outros tecidos, de forma lógica e racional, que foram de outras costuras e de outras ocasiões “têxteis”. Mas a operação da Vó Mercês era compor uma peça, não aleatória, mas observando os padrões estéticos dos tecidos, a qualidade desses e visando um fim como resultado advindo dessas operações anteriores.
O segundo momento do título se refere à obra clássica helênica (grega): a Ilíada de Homero, provavelmente compilada para a escrita no século 8 antes de Cristo. Esse escrito conta a história de Odisseu, também tratado como Ulisses na tradição latina, que enfrenta inúmeros desafios da volta da guerra de Tróia que retarda sua chegada à sua terra natal, onde era rei, em aproximadamente 10 anos. Com a demora de seu retorno e a falta de notícias, ele é dado como morto. Nesse momento entra a figura de Penélope, sua esposa.
Penélope aguardava ansiosamente a volta de Odisseu, o que tardava em acontecer. Os próximos da esposa do rei já colocavam a ela a necessidade de se casar novamente, pois seu marido era considerado morto. Mas a esperança de Penélope do retorno de Odisseu era viva. Com isso, na intenção de retardar um possível segundo casamento, e os pretendentes já batiam à porta, ela toma uma decisão: fiar um tapete e cozê-lo e ao término da empreitada ela se casaria, caso seu marido não retornasse nesse meio tempo. Movida pela esperança de volta ela o costurava durante o dia e o desfazia durante a noite na clara intenção de retardar a promessa. A esperança de Penélope estava certa: Odisseu voltou.
Mas como confluir o caso Penélope, a colcha de retalhos e a identidade? Certamente não vamos uni-las, mas interpretá-las.
Comecemos pela identidade. Identidade é um horizonte que se enxerga algo, mas não tem uma forma clara a menos que queiramos que ela tenha. É uma imaginação. Essa palavra é carregada em si da ideia de “comunidades”, ou seja, características comuns que são autoperceptíveis entre os indivíduos de determinado grupo. A identidade, nos modelos atuais, pode assumir formas “macro”, como as identidades nacionais ou menores como a “mineiridade” ou até mesmo nas particularidades das cidades. Entretanto tendo a concordar que a identidade, independente da escala, é uma ficção construída. Não há uma essencialidade ou algo potencial em si e independente: ela não existe por si mesma. Muito menos ela não está por descobrir como se fosse inata (essencialismo), mas ela é moldada de acordo com a situação cultural e sócio-temporal dos grupos a quem ela se pretende. Mais além, ela pode ter suas características objetais como: “nossa identidade é x” ou “nossa identidade é y” e muito comum no mundo globalizado: “nossas identidades são x, y e z”, mas não menos imaginativas.
Teóricos sobre a identidade? Muitos. Tantos que nem caberiam em nossa coluna. Mas o resumo da identidade é a polêmica e, ao mesmo tempo, um questionamento existencial: ela é uma realidade viva ou não?
Em minhas observações concluo que a identidade é uma construção com fins imaginativos e nós somos quem a damos sentido e serventia. Ela não existe a menos que queiramos, enquanto uma imaginação. Existe uma forja intelectual que observando a natureza em si ela é ficcional. Sua forja ou construção não necessariamente operam como uma produção industrial em que a junção de coisas resulta em novas coisas. Ela não é mercadoria. Posso citar aqui Zygmmunt Bauman[1]: a tarefa de um construtor de identidade é, como diria Levi-Strauss, a de um bricouleur, que constrói todo tipo de coisas com o material que tem à mão.” Por outro lado, Rogers Brubaker e Frederick Cooper[2] tendem a conceber a identidade como um artifício perigoso e que historicamente resultaram em diversos conflitos. Consequentemente, ela é um dado que tende a cristalizar-se no tempo, em outras palavras, ela sempre virá acompanhada de presentismo (necessidades atualizadas) o que naturalmente quebra a sua fluidez e se distancia do dinamismo que as sociedades na sua realidade histórica são. A fluidez identitária é justamente reportar à não-forma, como líquidos, que variam de acordo com o formato do recipiente em que ela está contida. Ele sempre é moldável e sempre limitado ao recipiente em que é alocado contrariando sua natureza físico-química. Assim é a identidade. Outro sociólogo ao qual podemos nos reportar é Pierre Bourdieu[3] que divide a identidade como relações de forças em uma sociedade, uma representação discursiva, categorias de percepção (o que é, e o que não é) e a busca por objetivação (materializar-se em algo). Além disso, a identidade é conjuntural e uma realidade não muito explícita que tende a trazer para o presente uma carga de identificação acumulada no tempo. Sua realização, para Bourdieu, “depende também do grau em que o discurso, que anuncia ao grupo a sua identidade, este fundamentado na objetividade do grupo que a dirige”.
Essas citações e autores são a ponta do iceberg. Mas podemos concluir que em nossa sociedade moderna a identidade continua sendo um falseamento da consciência de pertencimento diante de demandas da práxis cotidiana. Ela pode atingir dois níveis distintos: um grau de imobilismo, se limitada ao “o que é?” ou ser o estopim proativo para o “agir coletivo”. A “identidade”, independente de sua escala (macro ou micro), não é uma construção fixa para a realidade social e não tem resultados imediatos, a não ser que queiramos ou se forçamos sua síntese. Por outro lado, as características identitárias são ficções, porém isso não significa que não existam elementos comuns que tenham o poder de agregar os grupos. Hoje, as congregações humanas são fluidas ou, como quer Bauman, “liquidas” justamente por não termos a necessidade de fixarmos em um ponto específico para congregarmos. Com as fronteiras entre nós cada vez menos sólidas somos atraídos a nos identificar em delimitações nominais (sem substância) e múltiplas e não tanto aquelas sólidas como o exemplo da etnia (coisa difícil de definir entre brasileiros). O dinamismo do que se faz congregar é cada vez mais acelerado e variado. Somos muitos com outros muitos.
Mas retornando ao início de nossa fala: o que Penélope tem a ver com nossa identidade? Respondamos dentro dos nossos limites. A identidade de Barroso é uma colcha de retalhos em que costuramos hoje e amanhã desfazemos na esperança de que algo nos aponte ou que aconteça para que possamos encarnar esse espírito vacante. Ela não está aqui ou acolá ou em quaisquer outras coisas. Ao contrário de Penélope que esperava seu esposo. Felizmente na obra de Homero o ato de Penélope foi sábio e paciente, pois Odisseu (Ulisses) retornou à sua terra, Ítaca. Mas para nós o exemplo termina no ato de fiar e desmanchar à noite e na esperança de um retorno. Nosso Odisseu é só uma promessa! Não temos uma perspectiva de parar de fiar e desmanchar nossa colcha. Ao contrário de Penélope, acrescentamos novos fios amanhã para desmanchá-los à noite. Sempre vamos ter o anseio do objetivo de terminar, mas sempre nossas expectativas de terminar serão frustradas.
A objetividade da “identidade” se desmancha por uma atividade racionalizada por nós mesmos. Nos módulos do projeto essa é a tônica: não há necessariamente questões objetais ou regionais suficientemente fixas para acharmos a identidade de Barroso. Isso ficou claro quando identificamos locais que fazem sentido para nós, mas pertencem a outras cidades. Os idealizadores e coordenadores do projeto, inteligentemente, trouxeram aos barrosenses que participam das discussões uma tonalidade mais que necessária: o conhecimento de nós mesmos enquanto agentes de nossas comunidades. A identidade se figura como um recurso retórico ou instrumental para conhecermos a nós mesmos. As atividades artísticas, teorias e as práticas do curso nos dão plenamente essa consciência de nós. A tônica de buscarmos entender o nosso município, sua diversidade interna, localizar no espaço os lugares que fazem sentido aos munícipes e os debates sobre nossas deficiências colocam em voga a necessidade atual: consciência de si para a prática coletiva. Mas o ponto maior que em minha opinião pode nos impactar com o projeto “Cidades e Identidades Culturais” é a “consciência participativa”. Parece então que “consciência” amplamente citada no texto é um termo repetitivo, quebrando a estética da tessitura da escrita, mas é intencional, afinal ela é o que desperta o eu para a necessidade do coletivo. Agora, uma mera observação desse colunista: a identidade não é uma necessidade objetiva. Em outra via, a consciência sim; na mesma medida a racionalidade de nossas percepções enquanto coletividade. Ela não necessita de um “ser em si” pela concordância sistemática de múltiplas coisas comuns e daí derivar a “identidade(s)”. A identidade é congregação pelo que é comum: uma ficção na liquidez de nossos dias atuais. Entretanto o motor da agregação para a mudança ainda é a “consciência de coletividade”, ou melhor, “consciência do agir coletivo” que subtrai a “identidade” pura, simples e nominal. É uma fuga do mero subjetivismo do “homem que faz por si mesmo” (self made man).
Se a “identidade” vir acompanhada do “agir por um fim” sem corporificar em algo externo e único, objetal (o que é) ela tem valor em si de agregação. Por outro lado, se ela quer uma resposta simples e imediata dando razão de ser a algo, construiremos algo para perder sentido logo em seguida. Em “identidades” não há objeto material, o que procede disso é uma imaginação desencarnada.

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