O hospital, administrado pela Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig), não recebe mais pacientes de internação prolongada. Segundo o presidente da unidade, Wander Lopes da Silva, a proposta da coordenação de saúde mental do Estado é que 50 pacientes recebam alta a cada seis meses. Em um período de um ano e meio, todos os leitos devem ser fechados. A medida atende a Lei Antimanicomial, de 2001, que prevê o fechamento dos hospitais psiquiátricos em todo o Brasil e a substituição por redes de atenção psicossocial – não há data-limite para o processo.
Árduo. O processo de desospitalização, no entanto, não é simples e depende tanto de vagas em residências terapêuticas no município quanto de um trabalho individualizado que prepare o paciente para a “vida lá fora”. De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde de Barbacena, não há vagas nas residências da cidade, e a maioria dos pacientes não tem familiares, ou os parentes não querem recebê-los. Uma equipe vai começar a trabalhar na busca de alternativas para o problema.
A unidade atua no processo de emancipação dos moradores, mesmo daqueles que não querem deixar o centro. Diferentemente das práticas adotadas no Colônia, hoje os pacientes escolhem seu vestuário, fazem trabalhos manuais e andam livremente pelos pátios. A vontade individual é respeitada, e não há grades nem camisas de força.
Mudanças. A moradora Sueli Silva, 58, diagnosticada com esquizofrenia, por exemplo, passeia por vários espaços com um sorriso no rosto. A expressão se altera, porém, quando a palavra “mudança” vem à tona. “Aqui eu ajudo as meninas (enfermeiras) da noite, faço unha, saio para lanchar. Vim para cá quando era menina (aos 10 anos)”, conta. Em seguida, faz um “não” com a cabeça, e seus olhos se enchem de lágrimas diante da hipótese de deixar a unidade. Renato Pereira da Silva, 58, também com esquizofrenia, quer deixar a instituição. “Estou em um hospital e vou para casa, em Belo Horizonte”, afirma.
O diretor do centro explica que a equipe atua de forma individualizada. “O projeto é trabalhar em cada um deles o que precisa ser desenvolvido enquanto autonomia”, explica Lopes. As atividades incluem almoços em restaurantes, compra de objetos pessoais, passeios a clubes, visitas a residências terapêuticas, viagens, dentre outros.
“Gosto de morar aqui, mas alguns (moradores) me irritam. Gosto de sair andando por aí e dar voltas (nas dependências da unidade). Eu queria ter meu apartamento, mas não posso ficar sozinho.” Hélio Augusto de Araújo, interno
REUTILIZAÇÃO
Unidade pode dar lugar a lar de idosos
Depois que o Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena fechar seus 147 leitos, a unidade pode dar lugar a um hospital de cuidados prolongados e a um centro de referência para o idoso. Segundo o presidente do centro de saúde, Wander Lopes da Silva, as propostas são dos próprios trabalhadores e estão em discussão com o município e o Estado. A intenção é aproveitar a qualificação dos profissionais.
O hospital de cuidados prolongados receberia pacientes que não precisam mais de toda a tecnologia de um Centro de Terapia Intensiva (CTI), mas que ainda não estão em condições de retornar a suas residências. Já para os idosos, a ideia é ofertar um centro de convivência, assistência médica integral, entre outros serviços, como fisioterapia e terapia ocupacional.
Individualizado. No caso da reinserção de moradores do hospital psiquiátrico de Barbacena na sociedade, ela depende de um trabalho individualizado, segundo o coordenador de residência psiquiátrica da unidade de saúde e professor da Faculdade de Medicina de Barbacena, o psiquiatra Sebastião Vidigal.
“São pacientes que requerem cuidados especiais, cada um deve ser avaliado com relação aos aspectos físico e mental”, explica. (AD)
MINIENTREVISTA
Daniela Arbex, jornalista e autora do livro “Holocausto Brasileiro”, sobre o hospital Colônia
O que mais a impressionou durante a pesquisa para escrever o livro?
O fato de o Brasil desconhecer sua pior tragédia. Como um hospital que se prestou ao papel de limpeza social permaneceu nas sombras por tantas décadas?
Como a senhora vê esse esforço para fechar o Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena?
Desde 2001, o Brasil tem sua lei que preconiza a humanização do atendimento a pessoas com doença mental. Isso significa a extinção dos leitos de baixa qualidade no país. De lá para cá, passaram-se 16 anos, tempo suficiente para que essa mudança já tivesse sido consolidada. Ninguém pode dizer que o hospital foi pego de surpresa. Os remanescentes do Colônia têm direito, como os outros, a uma vida em liberdade, a uma verdadeira reintegração social. E não há reintegração dentro de muros.
Como a senhora vê a luta antimanicomial hoje?
Vejo com admiração o esforço de milhares de trabalhadores em saúde mental para conseguir dar dignidade a pessoas que perderam todos os seus vínculos. E também vejo com preocupação o risco de retrocesso desses avanços, quando defensores do antigo modelo manicomial começam a ganhar voz no país. (AD)
