Quantas vezes, nos seus 98 anos de vida, o Sr. Joaquim Ribeiro de Avelar terá rezado o salmo 23, em cujo versículo 1 o salmista canta: “O Senhor é meu pastor, nada me falta”. Sua fé sincera e absoluta, com toda a certeza, o levava a repetir com inteira confiança esta bela oração. Tive a satisfação de morar por muitos anos na mesma rua em que ele morava. Frequentemente, ao passar nas proximidades da sua casa, na esquina da Rua Gov. Magalhães Pinto com a João Santiago, eu gostava de ali me deter, para saborear a sabedoria daquele amigo tão simples e tão sábio. Apesar de termos confissões religiosas diferentes, também para mim:”o Senhor é meu pastor”. Por isso, não diferíamos na crença inabalável na existência de um Deus poderoso e misericordioso, que criou e governa o nosso mundo, que por nós tem amor de Pai, apesar de todas as nossas infidelidades e falcatruas cometidas por nossa frágil natureza humana. Como era bom conversar com o Sr. Joaquim!
Lembro-me dele, como dele se lembram meus filhos, quando; nas décadas de 1970 e 1980, ele participava das animadas “peladas” nas gloriosas tardes do Brejinho. Cobrindo a cabeça com um lenço com nós nas quatro pontas, ele nada ficava a dever aos participantes muito mais jovens na animação, nas corridas, nas disputas de bola, nas caneladas…Quantas vezes, ao voltar da minha jornada de trabalho na fábrica de cimento, eu ficava parado por vários minutos para apreciar a vitalidade e o vigor físico daquele jovem-idoso. Nos anos deste século XXI, já sentindo o peso da idade, nós o víamos na calçada da sua casa ou no lado oposto da rua, com sua cadeira móvel, ora aproveitando o calor do sol, ora usufruindo do frescor da sombra. Nessas ocasiões, ao passar por ele, eu gostava de brincar, lhe dizendo: “Sr. Joaquim, prepare-se, porque nosso governo em breve vai criar as taxas de uso do ar, do sol e da sombra, que são bens da União, como as riquezas que existem no subsolo.Junto com a conta de luz virá a cobrança do ar que respiramos, do aproveitamento do sol que nos ilumina e aquece e da sombra que nos refresca. Segundo os burocratas do governo, não é justo que alguém aproveite de graça desses bens da natureza.”
Lamentavelmente, a partir de 17 de janeiro deste ano, meu caro amigo e vizinho Joaquim deixou de desfrutar do sol, da sombra e do ar da nossa rua. Parafraseando o versículo final do salmo 23, com toda convicção, afirmo: “Sim, felicidade e amor o acompanharam todos os dias da sua vida. Agora sua morada é a casa do Senhor por toda a eternidade.”
Por Paulo Terra

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