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SITENa última edição deste jornal, na coluna “Fundo do Baú”, o historiador barrosense Wellington Tibério publicou, sob o título “Quem se lembra do Chico Lopes e dos seus causos”, um ligeiro esboço da vida do Sr. Francisco Campos. Eu me lembro! Não sei se na década de 1930 ele e a esposa já eram proprietários da pensão de Dona Alexandrina, mas, com certeza, na década de 1950, no início das obras de construção da fábrica de cimento Barroso, com afluxo de centenas de trabalhadores para o então distrito de Barroso, duas pensões na Praça Santana eram muito frequentadas; a de Dona Efigênia e a de Dona Alexandrina. Esta ficava num casarão no ponto onde hoje está construído o Edifício Antero de Souza (naquela época ainda não tinha sido aberta a Rua Júlio Pinto). De maio de 1956 a outubro de 1957, ainda solteiro, eu fazia minhas refeições na pensão da Dona Alexandrina, que, não tendo filhos, tratava como tais os seus clientes jovens e solteiros. Ainda me lembro da única vez em que fiquei bêbado na minha vida, quando tive uma terrível dor de cabeça consequência da ressaca, e Dona Alexandrina, na quinta e sexta feira depois do porre, preparou para mim comida adequada ao meu lamentável estado.

Com relação ao seu marido, conhecido como Chico Lopes, era realmente uma figura folclórica. Fazia companhia aos comensais da pensão na hora das refeições, entretendo-os com seus incríveis casos. Alguns dias depois que passei a ser freguês da pensão, na hora do almoço o Sr. Chico Lopes me surpreendeu, sentado à minha frente, me dizendo: “moço, fiquei sabendo que você tem o mau costume de tomar banho todo dia. Vai ver que você não sabe que nós temos uns buraquinhos na pele, chamados poros. Tomando banho você abre esses buraquinhos por onde podem entrar uns bichinhos muito pequenininhos chamados micróbios e você pode ficar muito doente.” Noutra ocasião ele me contou o “causo” do piloto do teco-teco  que, do avião voando baixo, lhe perguntou como chegar a São João del Rei, e ele lhe gritou: “segue a linha do trem”. E o Sr. Chico acrescentou um detalhe: dias depois pararam em Barroso, para almoçar na pensão, dois moços em viagem de São João para Barbacena, num Ford29.  Um deles contou ao Sr. Chico que, dias antes, voando sobre a zona rural de Barroso, perguntara a um caipira que tocava um carro de bois qual era o caminho para São João. Aí o Sr. Chico, cheio de orgulho, disse: “esse caipira era eu”. O moço se levantou, o abraçou com força, e disse: “o senhor salvou a minha vida. Meu tanque de gasolina estava quase vazio e, se eu não chegasse em São João, teria caído”. Parafraseando o poeta Gonçalves Dias no seu poema Y-Juca-Pirama, eu digo: gente, eu ouvi esta e outras histórias do Sr. Chico Lopes.

 

Por Paulo Terra

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