Hoje, relembrando meus anos de infância, me assusta a fixação de datas tipicamente comerciais, tais como “Dia das Mães”, “Dia dos Pais”, “Dia das Crianças”. Todos os dias da vida deles são dias das mães, dos pais, mesmo quando as crianças que geraram se tornaram adultas, ou deixaram de existir antes daqueles que lhes deram a vida. Nos meus anos de criança, nas décadas de 1930 e 1940, até eu completar 7 anos fui criança todos os dias e o dia todo; dos 7 aos 11 anos, 4 horas por dia nos períodos letivos, eu fui estudante de um Grupo Escolar, o Aureliano Pimentel, no Bairro das Fábricas em, São João del Rei.
No restante do dia e nos períodos de férias eu era apenas criança. O mesmo acontecia com meus colegas da mesma faixa etária. Jogávamos bola na rua, colocávamos casca-lho nas linhas do trem, roubávamos frutas no quintal dos vizinhos, pegávamos traseira nos caminhõesinhos da época ou no “grisu” (ônibus urbano) dirigido pelo “Caxangá” (apelido do motorista). Nas tardes quentes nadávamos escondidos e pelados no córrego formado pela junção do Lenheiro e do Água Limpa, pescávamos nos pequenos córregos que cortavam a Av. Leite de Castro. Tudo isso sem falar no Oratório Festivo, dos Padres Salesianos, que enchiam de alegria nossos sábados e domingos. “Embocar” (entrar sem pagar) na matinê do Cine Capitólio para nós era a glória. E tantas outras “artes” que fazíamos, e que tornavam alegre a minha infância e a dos meus conterrâneos. Aqui em Barroso, nas décadas de 1960 e 1970, meus filhos e seus colegas tiveram infância semelhante à minha, com brinquedos de rua, carrinhos de rolimã, pique bandeira, e tantas outras brincadeiras que as crianças de hoje desconhecem. Agora tudo mudou.
Tanto nas grandes como nas pequenas cidades as crianças, desde a primeira infância até o fim do ensino fundamental, são passarinhos presos em gaiolas chamadas apartamentos, em creches, em escolinhas pré, em Escolas Estaduais ou sem escola ne-nenhuma. Muitos são prisioneiros das drogas, escravos dos celulares, dos videogames e de uma infinidade de aparelhos eletrônicos. Em qualquer lugar que estejam, são reféns do medo de sequestros, de estupros e de outros muitos perigos. Enquanto isso, os pais e mães trabalham para ganhar dinheiro que lhes permita dar “coisas” para as suas crianças e, assim, não lhes sobra tempo para darem seu tempo aos filhos e filhas…
Que pena! Parece-me que hoje SER CRIANÇA já não é tão gostoso como quando eu fui e quando meus filhos foram crianças.
Paulo Terra


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