Este frio de julho ainda corta, ainda, como ontem, ainda corta, corta coração, corta as mãos, e ainda faz o estrago no rosto que vislumbra o amanhã que já esteve mais perto. Ele ainda refresca a memória, em meio ao frio e a desconfiança de hoje, mas ainda vive em meio as guerras e dificuldades. Este frio de julho ainda esquenta as almas de uma geração que talvez não tenha conhecido aquele, aquele verdadeiro frio de julho. Aquele frio da Praça, com acordes e mais acordes, aquela quermesse, aquela senhora, aquela fé, que move, nos move e remove entre as montanhas das nossas Minas Gerais, bem lá, onde estão adormecidos os sonhos escondidos entre os ouros daquele tempo, aquele tempo onde ainda existia aquele frio de julho e dava-se o valor devido aquelas preciosidades da época.
Um ouro feito de aperto de mão, de abraço, de quentão, de bingo, vispa, coelhinho, porquinho, vozes, prendas, leilões, luvas, toucas e amor. Alí, em algum lugar entre a Praça e a verdade, ou nos escombros da inteligência sem nada natural, ainda vive, meio morto, ou adormecido, aquele frio de julho, aquele julho, daquela Maria daquele Júlio. Isso, perdido entre o nada e o tudo, a gente tenta se reencontrar naquele frio, aquele de julho que nos faz rever o amigo que se foi, mas continua vivo na memória ou em um prédio qualquer de uma capital entre as modernidades do hoje e longe da pureza de ontem. Ainda há pouco, mas ainda sinto aquele frio daquele julho, ali na esquina, naquela mesa, naquele olhar, lá ainda está aquele frio de julho, daquele julho que não volta mais, mas ainda está em algum lugar dentro da nossa memória. Aquele frio de julho, ainda sinto, sim, sinto aquele frio de julho.
por Bruno Ferreira