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Passageiros do “trem de doido”, expressão do escritor Guimarães Rosa, vinham de várias partes do Brasil até Barbacena, no Campo das Vertentes, com destino ao hospital Colônia, maior hospício do país. Durante décadas, a unidade recebeu os “excluídos da sociedade” e impôs a eles um tratamento desumano. Sessões de choque como punição, encarceramento e banhos gelados foram algumas das práticas relatadas em filmes e livros. Atualmente, os muros do antigo hospício abrigam o Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena, que trabalha com uma missão bem diferente: dar alta aos 147 moradores da unidade até o fim do primeiro semestre de 2018.

O hospital, administrado pela Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig), não recebe mais pacientes de internação prolongada. Segundo o presidente da unidade, Wander Lopes da Silva, a proposta da coordenação de saúde mental do Estado é que 50 pacientes recebam alta a cada seis meses. Em um período de um ano e meio, todos os leitos devem ser fechados. A medida atende a Lei Antimanicomial, de 2001, que prevê o fechamento dos hospitais psiquiátricos em todo o Brasil e a substituição por redes de atenção psicossocial – não há data-limite para o processo.

Árduo. O processo de desospitalização, no entanto, não é simples e depende tanto de vagas em residências terapêuticas no município quanto de um trabalho individualizado que prepare o paciente para a “vida lá fora”. De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde de Barbacena, não há vagas nas residências da cidade, e a maioria dos pacientes não tem familiares, ou os parentes não querem recebê-los. Uma equipe vai começar a trabalhar na busca de alternativas para o problema.

A unidade atua no processo de emancipação dos moradores, mesmo daqueles que não querem deixar o centro. Diferentemente das práticas adotadas no Colônia, hoje os pacientes escolhem seu vestuário, fazem trabalhos manuais e andam livremente pelos pátios. A vontade individual é respeitada, e não há grades nem camisas de força.

Mudanças. A moradora Sueli Silva, 58, diagnosticada com esquizofrenia, por exemplo, passeia por vários espaços com um sorriso no rosto. A expressão se altera, porém, quando a palavra “mudança” vem à tona. “Aqui eu ajudo as meninas (enfermeiras) da noite, faço unha, saio para lanchar. Vim para cá quando era menina (aos 10 anos)”, conta. Em seguida, faz um “não” com a cabeça, e seus olhos se enchem de lágrimas diante da hipótese de deixar a unidade. Renato Pereira da Silva, 58, também com esquizofrenia, quer deixar a instituição. “Estou em um hospital e vou para casa, em Belo Horizonte”, afirma.

O diretor do centro explica que a equipe atua de forma individualizada. “O projeto é trabalhar em cada um deles o que precisa ser desenvolvido enquanto autonomia”, explica Lopes. As atividades incluem almoços em restaurantes, compra de objetos pessoais, passeios a clubes, visitas a residências terapêuticas, viagens, dentre outros.

“Gosto de morar aqui, mas alguns (moradores) me irritam. Gosto de sair andando por aí e dar voltas (nas dependências da unidade). Eu queria ter meu apartamento, mas não posso ficar sozinho.” Hélio Augusto de Araújo, interno

REUTILIZAÇÃO

Unidade pode dar lugar a lar de idosos

Depois que o Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena fechar seus 147 leitos, a unidade pode dar lugar a um hospital de cuidados prolongados e a um centro de referência para o idoso. Segundo o presidente do centro de saúde, Wander Lopes da Silva, as propostas são dos próprios trabalhadores e estão em discussão com o município e o Estado. A intenção é aproveitar a qualificação dos profissionais.

O hospital de cuidados prolongados receberia pacientes que não precisam mais de toda a tecnologia de um Centro de Terapia Intensiva (CTI), mas que ainda não estão em condições de retornar a suas residências. Já para os idosos, a ideia é ofertar um centro de convivência, assistência médica integral, entre outros serviços, como fisioterapia e terapia ocupacional.

Individualizado. No caso da reinserção de moradores do hospital psiquiátrico de Barbacena na sociedade, ela depende de um trabalho individualizado, segundo o coordenador de residência psiquiátrica da unidade de saúde e professor da Faculdade de Medicina de Barbacena, o psiquiatra Sebastião Vidigal.

“São pacientes que requerem cuidados especiais, cada um deve ser avaliado com relação aos aspectos físico e mental”, explica. (AD)

MINIENTREVISTA

Daniela Arbex, jornalista e autora do livro “Holocausto Brasileiro”, sobre o hospital Colônia

O que mais a impressionou durante a pesquisa para escrever o livro?

O fato de o Brasil desconhecer sua pior tragédia. Como um hospital que se prestou ao papel de limpeza social permaneceu nas sombras por tantas décadas?

Como a senhora vê esse esforço para fechar o Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena?

Desde 2001, o Brasil tem sua lei que preconiza a humanização do atendimento a pessoas com doença mental. Isso significa a extinção dos leitos de baixa qualidade no país. De lá para cá, passaram-se 16 anos, tempo suficiente para que essa mudança já tivesse sido consolidada. Ninguém pode dizer que o hospital foi pego de surpresa. Os remanescentes do Colônia têm direito, como os outros, a uma vida em liberdade, a uma verdadeira reintegração social. E não há reintegração dentro de muros.

Como a senhora vê a luta antimanicomial hoje?

Vejo com admiração o esforço de milhares de trabalhadores em saúde mental para conseguir dar dignidade a pessoas que perderam todos os seus vínculos. E também vejo com preocupação o risco de retrocesso desses avanços, quando defensores do antigo modelo manicomial começam a ganhar voz no país. (AD)

 Informações Aline Diniz – O Tempo
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