No final da década de 1780 aconteceu em Minas Gerais uma conspiração conhecida com Inconfidência Mineira, objetivando libertar o Brasil da dependência da metrópole portuguesa. Faziam parte desta conspiração militares, sacerdotes, intelectuais e gente do povo, sob a liderança do Alferes Tiradentes. O motivo maior da conspiração era protestar contra a cobrança do “quinto do ouro”, ou seja, a obrigação de a colônia pagar a Portugal um quinto do seu PIB (na época ainda não existia esta sigla). No caso específico, principalmente 20% de todo o ouro, diamantes e pedras preciosas extraídos na colônia. Quando a rainha dona Maria I teve conhecimento da conspiração, mandou prender seus líderes, que foram degredados para a África, exceto Tiradentes, o cabeça da revolta, que foi submetido a julgamento e, por fim, enforcado no dia 21 de abril de 1792. Já naquela época a corte portuguesa não quis ouvir a “voz rouca do povo”; trinta anos depois perdeu a colônia e seu quinto do ouro com a independência do Brasil.
No final da década de 1980, ou seja, 100 anos após a Inconfidência Mineira, quando o regime militar estava dando os últimos suspiros, o deputado federal Ulysses Guimarães, então presidente da Assembleia Nacional Constituinte, já dizia que os governantes têm que ter a coragem de “ouvir a voz rouca das ruas”. Agora, nas duas primeiras décadas do século XXI, o que nossos governantes cobram do povo não é apenas o “quinto” do seu trabalho, do seu esforço para sobreviver. O que pagamos de impostos é mais de 40% do que ganhamos, sob a forma de inúmeros impostos, taxas e tributos. É o suor do povo brasileiro trabalhador, do empreendedorismo dos micro, pequenos, médios e grandes empresários que geram o PIB, para encher os cofres do governo, para servir de gordura nas panelas de maus administradores, através de grandes e pequenos “pixulecos” em mensalões, petrolões e tantas outras formas de gatunagem.
Enquanto isso, carecemos de educação em quantidade e qualidade numa pátria que se diz educadora, vivemos morrendo de medo da bandidagem por falta de segurança pública, ficamos horas, dias e meses à espera nos corredores de hospitais por falta de investimento na saúde, corremos o risco de morrer de sede por falta de água nas torneiras. Mas agora, como estamos vendo nos últimos meses, o que ouvimos já não é a voz rouca das ruas. É o BRADO RETUMBANTE DE UM POVO ENGANADO que sai às ruas aos milhares para protestar contra a corrupção e má gestão do dinheiro público, como aconteceu no último dia 16 de agosto. Queira Deus que as atuais autoridades dos poderes executivo, legislativo e judiciário da União, dos Estados e dos Municípios ouçam esse brado retumbante, antes que aconteça algo pior que ordeiras manifestações de rua. Se os governantes de Brasil não estão ouvindo o brado retumbante de um povo revoltado, ou são surdos, ou são realmente mal intencionados.
Por Paulo Terra

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