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Eu tenho uma profunda admiração pela figura de Nelson Mandela e no último domingo tive o privilégio de conhecer a prisão em que ele esteve preso por 18 anos, em Robben Island. A visita, posso afirmar, foi um momento de grande importância na minha história e me inspirou uma reflexão que gostaria de compartilhar, especialmente considerando os fatos que vêm ocorrendo no Brasil e no mundo.

O que Mandela diria sobre o jovem que matou nove negros em Charleston nos Estados Unidos (ódio racial)? ou sobre a pessoa que apedrejou a criança do candomblé no Rio (ódio religioso)? ou o militar que afrontou os haitianos em São Paulo (ódio xenófobo)? ou os deputados que aprovaram a redução da maioridade penal na Comissão (ódio interclasses)? ou ainda as inúmeras ações e crimes de ódio machista e de gênero de todos os dias?

Creio que Mandela nos diria que tudo isso é resultado de uma superestrutura que, ao operar, faz vítimas os agredidos, mas também os agressores.

Mandela não odiava os brancos racistas, odiava o racismo. Sobre isso, ainda na prisão, ele disse “Eu lutei contra a dominação branca, e eu lutei contra a dominação negra. Eu nutri o ideal de uma sociedade democrática e livre, na qual todas as pessoas vivem juntas em harmonia e com oportunidades iguais. É um ideal que espero viver para alcançar. Mas, se for preciso, é um ideal pelo qual estou preparado para morrer.”

No pronunciamento de hoje sobre a tragédia de Charleston, Obama citou Martin Luther King Jr. para nos chamar a atenção sobre a importância de nos “preocuparmos com o sistema, o estilo de vida, a filosofia que produz os assassinos”.

Na maioria das vezes as pessoas têm atitudes irrefletidas e acabam servindo de correia de transmissão para todo um conjunto de ideias que, ao fim e ao cabo, desaguam no mar de ódio. No gatilho de Charleston existe a impressão digital de milhares, milhões…

Por isso é que os atuais embates no Congresso Nacional, por exemplo, já começam perdidos. Não adianta odiar (mais uma vez o ódio) toda sorte de Bolsonaros e as bancadas da bíblia e da bala, é preciso refletirmos, antes, sobre as condições de possibilidade que operam para que essas ideias floresçam ou, melhor, para que continuem vivas por tanto tempo.

A boa notícia é que se temos a capacidade de identificar as ideias que estão na raiz de tanto ódio, podemos também combatê-las (dualidade da estrutura). Mandela deu esperanças ao mundo de que a mudança é possível e nos ensinou uma lição valiosa: “ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, ou por sua origem, ou sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se elas aprendem a odiar, podem ser ensinadas a amar.”

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Prisão de Robben Island
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Imagens do Apartheid. Bancos públicos apenas para brancos.
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Cela onde Mandela ficou preso uma parte de sua pena (18 anos).
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Visão da Cidade do Cabo a partir de Robben Island

 

Por Antônio Claret

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