Há pouco tempo, não muitas centenas de anos atrás, em algumas sociedades, o homem se julgava uma figura central. Tal percepção de mundo, em partes chegou a nós pela via cristã, concentravam-se na idealização que os seres humanos foram obra de um repente de 7 dias, criado de forma especial, central entre os demais seres ou, pejorativamente, as bestas e o resto daquilo que havia na terra. De forma lenta, não há muito, o homem deixa de ser pensado como essa categoria de superior e de primazia para assumir seu verdadeiro lugar entre todos os seres vivos. Entretanto, a luta foi acirrada na substituição de sintagmas: do “o homem e os animais” para este, “o homem e os demais animais”. Se acaso quisermos ser mais diretos seria afirmar que o Homo sapiens sapiens é só mais um em toda a biodiversidade.
A aceitação de que o homem não era o centro foi uma árdua tarefa de desconstrução, ideologicamente e teoricamente falando (talvez podemos dizer cientificamente). Parte dessa superação pode ser creditada aos trabalhos de Charles Darwin (1809-1882), ao colocar a trajetória humana numa rudimentar árvore de parentesco a partir de suas características biológicas e não por evocação de um texto considerado sagrado. O homem “evolui”, ou seja, uma existência mutante na sua história enquanto mais uma espécie. O gênero Homo passou por suas “seleções naturais” na sua caminhada biológica na mesma medida que todos aqueles que vemos hoje. E, sem dúvidas, por que não poderia ela se extinguir como tantas outras? Sem contar que ele possui uma história relativamente recente sobre a terra se comparada com outros seres.
Na mesma medida que a humanidade tomou seu curso, outros grupos de animais se associaram a nós. São os casos clássicos de coevolução. Homem junto ao cão é um exemplo bem próximo do nosso cotidiano. O domesticamos. Existe um elo milenar entre Homo sapiens sapiens e o Canis lupus familiaris. Juntos desde a caça, da proteção e da segurança alimentar deles, como uma relação mutualística a, simplesmente, juntos pelo prazer da companhia. Trazendo para nossos dias, devido à milenar amizade, direta ou indiretamente temos responsabilidade em nossa coexistência.
Cães e homens não são duas entidades distintas das demais relações ambientais. Nós e eles fazemos parte de um mesmo ecossistema, nas cidades e fora dela, inclusive sujeitos a interferências mútuas em diversos planos. A falta de cuidado com ambos pode causar prejuízos na ordem da saúde pública. No caso dos cães, falta de manejo adequado, sustentável e, podemos afirmar, moral, afeta muito mais do que as populações em si, mas volta-se contra os humanos, principalmente em termos de saúde. Quanto à moral, refiro-me a tomar pra si um filhote, movido apenas pela empolgação, e não mensurar as consequências: ele cresce, come, tem necessidades fisiológicas, precisa de vacinas e de nossos bons sentimentos. Porém, sem essa ponderação mais consciente muitos o abandonam nas ruas quando ele não mais se adequa àquilo que idealizaram quando era filhote. Uma imoralidade acompanhada de covardia quando se faz tal atitude além de um descompromisso com a coletividade quando pensamos em saúde pública.
Não é por menos que os casos de abandono de animais, em um sentido mais amplo, tem chamado a atenção há alguns anos dos organismos de saúde, em especial a da Organização Mundial da Saúde (World Health Organization), a OMS. Os animais abandonados, cães, gatos, equinos, muares etc. são transmissores, diretos ou indiretos, de inúmeras doenças, as chamadas zoonoses. São inúmeras a resoluções (reports) da OMS alertando sobre as zoonoses e o controle populacional dos animais nas diversas partes do mundo. Talvez as que chamem mais a atenção são as de 1988, sobre o controle rábico (da raiva), a de 1990 sobre as medidas de controle populacional de animais itinerantes (no report chamam de stray animals), eufemismo para abandonados. Mais recente, num trabalho conjunto da FAO – Organizações Unidas para Alimentação e Agricultura, da OIE – World Organization for Animal Health e a OMS, publicaram o estudo “Sharing responsibilities and coordinating global activities to address health risks at the animal-human-ecosystems interfaces” (Compartilhando responsabilidades e coordenando atividades globais endereçadas aos riscos de saúde na interface de ecossistemas humano-animal). Tal estudo mais do que um marco de movimentação interinstitucional sobre o assunto, coloca em foco o homem e os demais animais como parte integrante de um mesmo sistema e, ao mesmo tempo, alerta para o problema de saúde pública quando não controlados de forma efetiva.
Nessa esteira de atentar para o problema dos animais de rua, em Barroso, a Associação Protetora dos Animais se notabiliza pela luta e conscientização a respeito dos animais de rua com ações de mutirões de vacinação, aplicação de vermífugos etc. e com a castração a baixo custo. A Associação se tornou utilidade pública pela lei municipal n° 2477/2013. A atual presidente Grasielly Melo e a secretária Cláudia Alves de Andrade ressaltam que o trabalho da Associação tem sido voltado para a conscientização da população sobre os cuidados com os animais, alertando também sobre o abandono. Além disso, a presidente da Associação dá ênfase como uma das ações de relevância a castração a baixo custo e tentativa de controle de população dos animais de rua, em especial de cães que são os mais numerosos na cidade. Em parceria com os Veterinários na Estrada, a castração é aberta à população, mas com uma lista limitada, sendo que a cada 3 animais submetidos à cirurgia, um cão de rua é castrado. Portanto uma prática direta sobre o controle de população dos cães de rua e abandonados. Como alerta, a presidente e a secretária dizem que os animais na rua são um problema de meio ambiente e de saúde pública, logo há a necessidade dos poderes públicos olharem com mais cuidado para a causa.
Diante de tantas notificações no nível internacional e um problema patente em nossa cidade, cremos que a ação do poder público é mais do que necessária e também urgente. Por parte do executivo, é necessário atentar que é um problema de saúde pública e as zoonoses como parte da responsabilidade do governo municipal. Podemos também contabilizar que em relação ao legislativo, já que existe a lei municipal n° 2541/2014 sobre as penalidades para maus tratos a animais, sugiro a convocação de uma audiência pública, convidando especialistas, veterinários, a própria Associação para compartilhar e visualizar ações concretas em outros municípios concernentes ao tratamento dos animais. Com isso, estudar possibilidades junto ao executivo a inclusão no orçamento municipal os problema dos animais na rua, a criação de um órgão específico para o controle zoonótico. Saber mais sobre o tema e trazer à consciência a necessidade de se pensar concretamente enquanto política pública municipal. Além disso, estabelecer junto ao Executivo a efetivação do telefone pra quem for acatar das denúncias, como previsto na lei, e quem fiscalizará para que a lei sobre os maus tratos se cumpra de forma efetiva.
Deve-se, por sua vez, trazer à tona a discussão sem atenuar nossas responsabilidades. O controle de animais é parte integrante da gestão das cidades. E fica o alerta para que a população seja consciente e pense bastante sobre as responsabilidades que implicam de se ter um animal doméstico. Eles não são descartáveis, são parte do nosso ecossistema, nem melhor nem pior que os seres humanos. Pensemos em nós e neles de forma equânime.
Junto à coluna seguem as fotografias de Moisés Jorge que retratam alguns cães pela cidade e sua relação com os homens. Nelas ficam patentes algumas formas muito comuns em nosso dia-a-dia dos cães ocuparem o espaço público.
Por Maurício Carrara



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