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Um problema de Saúde Pública que atinge a maioria esmagadora dos municípios brasileiros, o uso do crack, que antes se via com mais frequência nos grandes centros, há alguns anos também chegou às pequenas cidades. A droga, relativamente nova, surgiu nos bairros pobres de Nova York, nos Estados Unidos, em meados da década de 80. Uma opção mais barata e mais viciante, feita a partir da pasta base da cocaína, o crack chegou ao Brasil no início dos anos 90 e rapidamente se espa-lhou por São Paulo, onde a região da Estação da Luz, que ficou conhecida mundialmente como Cracolândia, foi invadida pelos usuários da droga.
O Estado, governantes e a própria população enfrentam cada vez mais os aspectos negativos da epidemia do crack. Um estudo da Confederação

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Vereador foi quem levantou o assunto na Casa

Nacional dos Municípios (CNM) deu origem ao portal de internet Observatório do Crack, que mapeia o uso da droga nas cidades brasileiras. O assunto foi levantado pelo vereador de Barroso, Fernando Terra (PP), durante reunião na Câmara Municipal. “O crack é um problema que preocupa todo o Brasil. Preocupa pais, mães, a todos nós. É bastante grave a situação em relação ao consumo do crack, não só no aspecto do tráfico, mas ainda do usuário, que tem destruído a própria família com seu vício”, afirma. Para o edil, o primeiro passo para o combate ao crack é o diálogo entre as várias instituições, encarando o problema de frente. “Eu acredito que a prevenção é o único cami-nho viável. Isso não significa que não deva existir um trabalho policial na repressão, mas sem a prevenção nós não vamos a lugar nenhum”, finaliza o Fernando Terra.

O site Observatório do Crack foi criado em 2010 com o objetivo de disponibilizar informações sobre a circulação e o consumo de drogas no Brasil. Segundo o levantamento apresentado, 98% dos municípios pesquisados apresentam problemas com o crack. Na sessão ‘Mapa do Crack’ é apresentado um diagnóstico com o nível dos problemas relacionados à circulação da droga em cada cidade, divididos por cores: vermelho (alto), amarelo (médio) e verde (baixo). Em Minas Gerais, com 853 municípios, o estudo apresenta dados de 805 cidades. Dessas, 738 tem circulação de drogas. Na descrição de cada cidade, é apresentada a população total, área do município, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), se possui programa de combate ao crack e se possui Centro de Atenção Psicossocial (CAPS).
Trazendo o problema para mais perto, na região, a maioria dos municípios – como Barroso, Barbacena, Tiradentes, Prados e São João del Rei – está no nível médio com relação à circulação de crack, sinal de alerta. Mas entre as classificações amarelas da região, uma mancha vermelha chama atenção: a “pacata” Dores de Campos tem classificação vermelha e o problema com a droga circula em nível alto no município de cerca de 10 mil habitantes.
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O PODER DA DROGA
Para tentar entender o poder de destruição da droga, a repórter Raquel Lopes, do jornal Dores EM DIA, conversou com um usuário de crack da cidade de Dores de Campos, que há sete anos faz uso da droga. O homem, que não terá sua identidade revelada, entrou no mundo das drogas aos 15 anos de idade e, desde então, não parou mais. No começo era maco-nha, passando pela cocaína e logo depois, remédios controlados, que eram fáceis de conseguir na cidade, segundo o usuário, com a compra de receitas. Já o crack surgiu em sua vida após a necessidade de consumo e os efeitos limitados das outras drogas em seu organismo.
Há sete anos fazendo consumo da pedra, o usuário não conseguia mais deixar de usar a droga e o vício foi se intensificando com a morte de familiares. “Não via mais sentido na vida. Comprava todos os dias a pedra. Não tenho uma média de quanto usava por dia, mas sei que o que tinha no bolso era para consumo”, comenta o usuário que afirma existir muitas pessoas vendendo a droga, ou seja, que é muito fácil de ser comprada na cidade. O homem, que saiu do emprego pela ansiedade que a droga causava em seu corpo, conta que ficava acordado direto, sendo a droga, até mesmo, seu café da manhã. “O crack acabou com a mi-nha vida. A gente usa e dá mais vontade de usar. Depois que passa seu efeito, a gente sente uma depressão muito grande”, conta o usuário dorense, que aproveita para acrescentar que só consumia líquido e não se alimentava. “Tenho cerca de 1,60 cm e cheguei a pesar 50 kg”, finaliza o usuário, que passa por tratamento na comunidade ‘Luz Divina’ e já conseguiu recuperar 17 kg e a razão de viver novamente. A comunidade que fica nos arredores de Conceição do Pará, no centro-oeste de Minas, atende principalmente a região do Campo das Vertentes e Zona da Mata e hoje tem 110 residentes, sendo que 60 destes dependentes são das cidades de Dores, Bar-roso, Prados, São João del Rei, Alfredo Vasconcelos e Barbacena. Dos 60 internos citados, 80% já fizeram uso do crack. Em funcionamento há apenas um ano e meio, a Fazendinha, como é co-nhecida, já abrigou cerca de 60 dependentes químicos de Barroso e Dores de Campos.
SAÚDE PÚBLICA
Segundo dados da Secretaria de Saúde de Barroso, nos primeiros quatro meses de 2015, o município gastou R$238 mil e 902 com internações para tratamento de usuários de drogas. Foram 22 pessoas internadas, um gasto médio de R$2,5 mil por mês para cada uma. Diante de alguns casos, o Ministério Público usa um processo especial em caso de tratamento para usuários de drogas, a chamada “judicialização da saúde”, procedimento adotado para fazer cumprir, na íntegra, os preceitos constitucionais da Universalidade e Integralidade da Atenção à Saúde. Com isso, o município passa a ser obrigado a pagar o tratamento, deixando de investir em grupos prioritários, como os portadores de doenças crônicas.
A epidemia do crack, que se espalhou por grandes metrópoles, pequenas cidades e até mesmo  zonas rurais, traz grande prejuízo para os usuários, mas também atinge famílias, a sociedade e o Estado. Cada vez mais, o crack deixa de ser uma simples droga, um assunto somente da esfera policial, e passa a ser encarado como um problema social que já não está mais batendo na nossa porta, mas adentrou nossas vidas e destruiu nossos lares. Assim como a droga, Barroso está amarelo e Dores de Campos está vermelho, pedindo ajuda das autoridades para combater um dos maiores vícios da humanidade. Saiba mais sobre o estudo:

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