Pedimos licença aos familiares e também aos muitos leitores deste jornal, mas não conseguimos escrever sobre Carnaval sem mencionar um ícone da festa popular brasileira para a nossa cidade. Nos referimos ao Tó Lamounier, homem que sambou até o último momento da sua vida. Entenda o samba como luta. Sambou vencendo as dificuldades e criando os filhos dignamente, sambou construindo empresas, fazendo basculantes, janelas e abrindo portas para muitas pessoas que tinham dificuldades de enfrentar a realidade do alcoolismo. Sambou literalmente por todas as escolas e instituições que o convidaram para brincar na festa do povo e sambou na festa que ele amava e da qual pela primeira vez vai faltar. Aliás, vai faltar e vai fazer muita falta. Aliás, já faz, muita.
Incrédulos, neste Carnaval, assim como em vários outros que virão, vamos procurar pelas ruas e vielas desta cidade aquele homem de corpo franzino e de coração enorme. Em meio aos batuques, aos passistas, às fantasias, vamos procurar aquele homem de passos curtos, mas de sorriso gigante. Debaixo das bonecas gigantes, perplexos, ainda vamos levantar aquelas saias e querer saber por onde anda o homem que fazia o Carnaval ter sentido. E por mais que seja doloroso, e a vida é, a gente vai procurar, procurar, mas não vai encontrar. Não, triste informar, mas não vai, não aqui entre estes corações errantes, mas lá em cima, no céu, no andar dos justos, dos amáveis, dos sorridentes, dos sambistas, dos carnavalescos, dos eternos.
Não vai ser possível aquele abraço, aquele aperto, ouvir aquela voz rouca, ver aqueles olhos saltando de alegria, mas a gente vai encontrá-lo brilhando, iluminando aquela noite mágica de Carnaval. E lá de cima, “bagunçando” o céu, como já deve estar fazendo, em meio aos batuques, com aquele passinho rasteiro pelas nuvens e com o seu dedo indicador subindo e descendo, o nosso eterno Tó vai nos mandar uma mensagem de paz, de amor e de esperança, para que todos possam entender que a vida, por si só, é um Carnaval, tem dia e hora para acabar, mas até lá, viva e aproveite cada segundo. Seja feliz, sambe, sorria, mesmo que lhe falte alguém como nos falta o Tó, mas viva o que lhe resta, porque ainda existe amor.
É verdade, nossos carnavais nunca mais serão os mesmos, mas não podemos deixar de fazer o que ele mais amava: sambar, brincar, pular, sorrir… pular Carnaval. Que sua energia, Tó, aquela eterna energia, possa cair em forma de confetes e serpentinas abençoando toda a cidade e nos convidando a sermos felizes, nem que seja por alguns dias…
por Bruno Ferreira

