Resposta a Evaristo de Miranda

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Este post é uma resposta ao argumento do pesquisador da Embrapa Evaristo de Miranda apresentado em palestra de julho deste ano e disponível no youtube pelo seguinte link:https://www.youtube.com/watch?v=TK2LqZa2tYY&feature=youtu.be 

Em resumo: acredito que o pesquisador articula dados confiáveis, porém elabora conclusões equivocadas.

O argumento dele é o que de um grande entrave para o nosso desenvolvimento é a quantidade de terras que nós protegemos. Se protegêssemos um pouco menos e tivéssemos mais terras agricultáveis disponíveis, poderíamos nos tornar a potência que os Estados Unidos são. Em certo momento ele compara as estatísticas de terras protegidas entre os dois países e conclui categoricamente: “eles são assim porque são assim e nós somos assim porque somos assim”.

Sem entrar no mérito do extremo reducionismo dessa conclusão, gostaria apenas de lembrar que todos os mecanismos legais de proteção de terras que ele cita são muito recentes na nossa história. Ele mesmo nos apresenta esses dados. A demarcação de terras indígenas, o avanço dos parques nacionais, APAs, criação das terras quilombolas… tudo isso tem origem ou se consolida apenas na Constituição de 1988. Já o CAR (que ele tanto cita) só surgiu em 2012!

Convenhamos, não foi por falta de desmatar, não foi por falta de latifúndio, não foi por falta de grilagem de terras, não foi também por falta de matar índios e tomar suas terras e não foi por falta de escravizar negros (quilombolas) que nós não conseguimos nos tornar um país mais desenvolvido hoje. Fizemos tudo isso em demasia.

Ao final da palestra ele apresenta um gráfico muito interessante e que, em larga medida, contradiz e sabota o seu próprio argumento. O gráfico mostra que a nossa agricultura, devido a avanços tecnológicos desenvolvidos aqui, tem consigo produzir cada vez mais em cada vez menos espaço. Diante da constatação de tanto ganho de eficiência, a proposta de expandir o território da fronteira agrícola perde força. Ainda sobre esse ponto, notem uma coisa interessante: o período do ganho de eficiência que ele apresenta coincide com o marco normativo da nossa constituição. A nossa agricultura deu um enorme salto de qualidade quando teve que enfrentar o desafio de produzir mais sem desmatar/grilar/invadir…

Por falar em tecnologia, uma coisa que ele ignora por completo durante toda a palestra é a função agrícola da floresta protegida. Há um mundo de evidência científica hoje que comprova que a agricultura pode ser mais produtiva quando acontece respeitando o equilíbrio ecológico da região. Preservar áreas verdes em um pouquinho da fazenda, portanto, não é “ecochatismo”, é uma estratégia produtiva muito inteligente. O agronegócio brasileiro sabe muito bem disso, do contrário o CAR jamais teria sido aprovado no Congresso. Por isso, acho muito sensacionalista dizer que milhões de pessoas são “coagidas” a preservar “sem ganhar nada”. E notem que nem estou entrando no mérito das externalidades positivas para toda a sociedade, resultado de áreas preservadas…

Vale também recuperar uma ideia interessante que ele apresenta. Há uma diferença marcante entre área protegida no papel e área preservada de fato. O palestrante mesmo nos lembra o quão atacadas nossas áreas protegidas ainda são (ele até brinca dizendo que se fosse só motocross, como é nos Estados Unidos, estaria ótimo). Pois bem, o Cadastro (CAR) já deveria ter sido concluído há algum tempo. Por pressão de uma parte mais tacanha do setor agrícola, o deadline para conclusão do CAR vem sendo adiado e adiado… Isso significa que nós ainda não estamos fiscalizando as propriedades rurais como deveríamos para sabermos se, de fato, as áreas estão sendo mesmo protegidas. De qualquer forma, análises preliminares do Imaflora têm mostrado que muito do que foi declarado pelos proprietários como área de mata nativa já foi ou está sendo desmatado.

Para concluir, gostaria de dizer que essa visão de mundo que enxerga o Brasil como um campeão da preservação ambiental não só contraria a ciência e a história, ela me contraria pessoalmente… Eu tenho militado na área ambiental já há mais de uma década com a Campanha Plante uma Árvore e nós sabemos muito bem o sentimento de desprezo generalizado que infelizmente ainda existe em nossa sociedade com relação ao meio ambiente. Serão ainda décadas, talvez séculos para que passemos a valorizar e preservar nossos recursos naturais e – por que não? – sentir afeto, empatia e solidariedade pelos demais seres vivos. Quem sabe um dia, se/quando isso acontecer, a gente não passe a lutar para proteger e preservar não 50% do nosso território, mas 100%?

por Antônio Claret

Para conferir outros textos do autor acesse: antonioclaret.com

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