Coprocessamento em Barroso. Discussão sobre o tema é fundamental

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Acontece na noite de hoje, na Câmara Municipal de Barroso, importante audiência pública sobre a prática do coprocessamento. Segundo a Associação Brasileira de Cimento Portland, o coprocessamento é a destruição de resíduos perigosos, por meio da combustão, em fornos de produção de cimento. A prática acontece em outras nove cidades de Minas Gerais, como Carandaí, Ijaci, Pedro Leopoldo e outras.

A Associação das cimenteiras informa também que essa seria a forma mais “ambientalmente segura” de destruição de tais resíduos. A Audiência em Barroso foi convocada porque a população tem convivido com a poluição atmosférica e o mau cheiro resultante desse processo. Junto com o incômodo, a população convive também com a ansiedade e a incerteza acerca dos reais efeitos dessa prática no organismo humano. Gostaria de argumentar neste post que talvez falte mais ciência para guiar o debate sobre coprocessamento e quero fazer isso dando o exemplo de descobertas científicas que revolucionaram outros ramos da economia no passado recente.

Até a década de 1970 a indústria das tintas e vernizes, bem como a indústria petrolífera e outras, utilizavam, na composição de seus produtos, o chumbo. Esse metal dava brilho à pintura, melhorava o desempenho da tinta e impulsionava os lucros das empresas. O consenso científico à época era o de que pequenas doses de chumbo eram inofensivas ao organismo humano. Esse consenso apenas foi abalado quando o médico pediatra americano Herbert Needleman, após anos de estudo minucioso com centenas de crianças, conseguiu comprovar que mesmo uma mínima dosagem de chumbo poderia comprometer o desenvolvimento cognitivo das crianças. Mesmo frente a uma reação violenta da indústria, a tese de Needleman prevaleceu, o chumbo foi banido do processo produtivo e milhares de casas e escolas nos Estados Unidos tiveram que ser repintadas.

Há ainda muitos outros exemplos, como o CFC e o amianto. Por mais de 50 anos nós utilizamos o gás CFC nas geladeiras. Foi assim até descobrirmos o enorme estrago que ele fazia na camada de ozônio. Hoje, também vencendo a resistência da indústria, não há mais um único novo refrigerador ou ar condicionado que utilize tal gás. Apesar desses bons exemplos, nem sempre o final é feliz. Ainda que já esteja provado, por exemplo, que o amianto é um agente cancerígeno, nós continuamos usando esse material, no Brasil, nas nossas caixas d’água, telhas e materiais de construção.

Pensando no coprocessamento, vale muito aprofundar os estudos e avaliações de impacto. É fundamental conhecer mais sobre a saúde das populações das cidades onde essa atividade é desenvolvida, como Barroso. Que esses estudos possam, inclusive, se dar em perspectiva comparada com cidades de mesmo porte e da mesma e de outras regiões do país.  Se a indústria cimenteira tiver boa vontade e se tiver mesmo tanta certeza de que o processo é ambientalmente seguro, que financie mais e melhores estudos científicos nessa área. Só assim poderemos ter mais tranquilidade e menos ansiedade.      

por Antônio Claret

Para conferir outros textos do autor acesse: antonioclaret.com

Confira abaixo o áudio completo do texto

 

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