UM DECRETO QUE PODE DECRETAR MUITAS COISAS

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A controvérsia acerca do decreto 7.857 da Prefeitura de Barbacena, que restringe a circulação dos ônibus intermunicipais no centro da cidade, continua viva. A medida provocou a indignação das populações vizinhas, gerou protestos e já começa a ser revista. A discussão gerada pelo decreto revela o quão longe ainda estamos de uma política de coordenação intermunicipal. A cidade de Barbacena é uma cidade polo em nossa região e, por isso, deveria assumir liderança, responsabilidade e protagonismo, inclusive para com cidadãos que moram para além de suas fronteiras, mas que demandam ou dependem dos serviços e das oportunidades geradas pela cidade, retribuindo com trabalho e gerando riquezas.  Ao contrário do que era de se esperar, porém, o decreto em questão revela uma visão estreita e pouco generosa daquela cidade.

Para além do caráter institucional da decisão, é ainda possível discutir a (ir)responsabilidade do clã dos Andrada que hoje se encontra à frente da administração da Prefeitura de Barbacena. A família Andrada é a mais longeva no parlamento brasileiro e sua influência na política deita raízes no império. Ao longo de todo o período republicano, geração após geração, os Andradas contaram com forte apoio das populações da região, sendo reiteradamente eleitos representantes do povo na Assembleia e na Câmara. Em Barroso, especificamente, sempre tiveram votos, em quantidades variáveis, ora com o apoio de um grupo, ora com o apoio de outro e até mesmo sem apoio político local algum.

A decisão dos barbacenenses pesa no orçamento de milhares de pessoas da região, especialmente daquelas que mais precisam do transporte coletivo, e beneficia uma reduzida parcela de taxistas, mototaxistas e da empresa concessionária de transporte público daquela cidade. De imediato, cabe protestar e buscar uma saída negociada para a crise. No caso de Alfredo Vasconcelos (cidade mais próxima de Barbacena), os protestos surtiram efeito e a decisão foi modificada. No caso de Barroso (maior cidade afetada pela medida), a Câmara assumiu a dianteira e o Vereador Eduardo agora faz parte da comissão regional que debate o assunto. Fora do legislativo, infelizmente, o silêncio das lideranças da cidade é ensurdecedor.

No longo prazo, independente da reversão ou não dessa decisão, o episódio pode servir de alerta para os barrosenses. Por um lado, a crise evidencia a falta de generosidade de nossos vizinhos, que não só se apequenam no papel de cidade polo e se negam a propor bons projetos de integração regional, como optam por políticas que são nefastas a esse propósito. Por outro lado, é possível que essa medida provoque a revisão dos termos do apoio historicamente hipotecado aos Andradas em nossa cidade. O decreto 7.857 pode resultar em prejuízos para barrosenses, pradenses, dorenses e outros, mas pode também decretar o rearranjo da economia regional, do papel dos municípios e das forças políticas.

 

Por Antônio Claret

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