Telma Jaqueline é “A cara de Barroso”

“Há pessoas que me perguntam se eu tenho vontade de andar e eu respondo que não sei, nunca andei. Isso nunca passou pela minha cabeça”, conta Telma Jaqueline Aparecida de Almeida, uma barrosense que a duras penas teve que aprender a enfrentar as dificuldades da vida por conta de sua condição.

Telma sofre de Paralisia Cerebral, desordem que afeta seu corpo e coordenação muscular, o que a impossibilita de andar. Durante sua trajetória, foi muito amparada pela família, especialmente por sua falecida avó, por quem ela ainda guarda um eterno carinho e gratidão.

Em seus primeiros quatro anos de escola, a menina frequentou a Apae de Barroso onde conviveu com demais crianças com condições semelhantes à sua.

Até então não era vista com olhares de condenação. Contudo, após ser transferida para uma escola regular, Telma experimentou o sentimento de insegurança.

Com dificuldade de se adaptar a um novo ambiente, onde era vista como diferente,
chegou a ficar um ano e meio fora da sala de aula. Depois desse hiato, para surpresa dos que acreditavam que ela abandonaria os estudos de vez, com coragem e determinação, a garota voltou para o colégio.

Telma conta que passou a ter mais independência e liberdade, sem o auxílio de um terceiro todo o tempo, no momento em que conseguiu sua cadeira de rodas motorizada. A partir de então, a jovem, que precisava ser amparada e carregada por alguém, por conta própria passou a cumprir tarefas do dia a dia como passear pelo centro da cidade, ir ao banco e frequentar outros estabelecimentos.

Pessoas que antes não a enxergavam como semelhante, passaram a conhecê-la mais a fundo e a entender que, mesmo com suas limitações, Telma era sim capaz de conviver em sociedade. Porém, o preconceito ainda resistia em alguns e as dificuldades, principalmente pela falta de acessibilidade, também surgiram em seu caminho já tão tortuoso.

Não ter um banheiro público e a falta de solidariedade de alguém que lhe
ajudasse a usá-lo, por exemplo, fez Telma passar por situações complicadas, como voltar suja e molhada para casa.

Seu amadurecimento e superação surgiram justamente dessas situações e também de sua visão quanto aos problemas dos demais ao seu redor. Emocionada, ela relata que há indivíduos em circunstâncias mais danosas que a sua, que muitas vezes não conseguem
entender o sentido da realidade e carregar consigo as memórias e possibilidades que a vida oferece. Telma teve essa chance e a aproveitou.

A lembrança mais vívida em sua memória vem dos primeiros anos da infância, onde sentada na cozinha ela ouvia as histórias e conselhos da avó, que, com sabedoria, vislumbrou para a neta que no futuro o mundo infelizmente seria um lugar de desigualdade e violência.

A menina, hoje uma mulher prestes a completar 40 anos, constatou as palavras da vó, tanto por situações que vivencia, como das que presencia todos os dias, seja na rua, no noticiário da TV ou em comentários na internet que incitam o ódio e a ignorância.

Tantos obstáculos, adversidades e falta de empatia fizeram de Telma uma mulher forte que vibra nos pequenos feitos do cotidiano, considerados simples para muitos, mas uma vitória para ela.