O dia 7 de dezembro de 2017 ficará marcado para sempre na memória dos barrosenses. A cidade ganhou de presente o assassinato de quase uma dezena de árvores. A indignação foi tão grande que apenas um dos vídeos que registrou o episódio, em pouco tempo, alcançou 3 mil visualizações.

Foram também centenas de manifestações de repulsa, tanto nas redes sociais, quanto pelas ruas da cidade. A indignação, o lamento e o luto são importantes, mas a reflexão sobre o episódio e sobre a cidade que queremos para as futuras gerações é fundamental neste momento.

A intenção deste post é discutir sobre as lições do assassinato das árvores a partir de um olhar multidimensional.

A fragilidade do argumento

A Prefeitura Municipal, por meio do Secretário de Meio Ambiente, em nota, informou que as árvores não eram adequadas ao plantio urbano, que faltou planejamento e que, por isso, deveriam ser cortadas. Esse tipo de manifestação descredita a Campanha “Plante Uma Árvore”, legitima o absurdo e amplia a resistência de uma boa parte da população com relação à arborização urbana. A seguir, seguem respostas a cada um dos argumentos apresentados por diferentes atores nos últimos meses.

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Espécies

A suposta inadequação das espécies não é uma opinião compartilhada por especialistas como o Doutor Marcos Magalhães que, antes e depois do massacre, já havia se manifestado contra o corte e sobre a validade das espécies ao plantio na cidade. Vale dizer ainda que os órgãos ambientais superiores não foram comunicados e que não houve nenhum laudo ambiental que fundamentasse a necessidade do assassinato de todas as árvores, em toda a rua.

Esse argumento também não se sustenta quando realizamos uma comparação simples. Na cidade de Belo Horizonte, onde há aproximadamente 500.000 árvores plantadas no perímetro urbano, as espécies mais comuns são justamente as mesmas que existiam nas imediações do cemitério, especialmente a Sibipiruna. O Inventário das Árvores de BH mostra essa realidade com muita clareza.

Ademais, vale novamente frisar que, quando a Campanha realizou o plantio, há 15 anos, ela o fez com a doação e orientação do Instituto Estadual de Florestas (IEF) e com o acompanhamento e a supervisão de especialistas. O local do plantio foi também escolhido com o máximo de critério, pois aquele era um passeio relativamente largo para os padrões de Barroso, o terreno era fértil, não havia fiação elétrica superior e, principalmente, não era a porta da casa de ninguém (ninguém vivo, pelo menos). A intenção era mostrar como uma rua poderia ser linda sendo arborizada e, assim, convencer o restante da população a plantar nos próprios passeios.

Danos aos túmulos e ao muro

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O outro argumento utilizado para justificar a medida disse respeito a supostos danos aos túmulos e ao muro do cemitério. Essa é também uma posição frágil, pois não houve o laudo arquitetônico ou de engenharia que comprovasse essa hipótese. Ao contrário, as fotos do muro e dos túmulos mais próximos da árvore com a raiz mais exposta não revelam nenhum dano aparente.

Passeio

Provavelmente o argumento mais importante utilizado foi com relação aos problemas que uma das árvores estava causando ao passeio público do cemitério. Mesmo esse argumento, porém, não é forte o suficiente para justificar o massacre realizado. Em reunião ordinária na Câmara Municipal, registrada em áudio, vídeo e ata, eu (Antônio Claret) me coloquei à disposição do poder público e dos moradores das imediações para realizar o conserto da calçada, inclusive utilizando recursos particulares, caso as árvores fossem poupadas.

De qualquer forma, é fundamental, para que esse erro não venha a se repetir, que coloquemos o argumento do passeio em perspectiva. Em Barroso, salvo engano, nenhuma calçada chega a ter 6 metros de largura, provavelmente nenhuma conta com piso tátil e pouquíssimas têm rampas. Em realidade, a maioria das nossas calçadas encontra-se em estado de total falta de padronização e de degradação do pavimento. Além disso, em uma boa parte dos passeios sequer o pavimento existe, há apenas terra e mato.

Essa é uma verdade que precisa ser dita, uma vez que durante o debate em prol do assassinato das árvores, os defensores da medida fizeram parecer que o único passeio da cidade onde idosos e cadeirantes teriam dificuldade de trafegar seria o passeio do cemitério.

É claro que a mobilidade urbana deve ser uma preocupação central do poder público e da sociedade, mas promovê-la com base na degradação ambiental é um absurdo e um contrassenso.

Escorpiões

Escorpiões que foram mortos por vizinhos em suas casas
Escorpiões que foram mortos por vizinhos em suas casas

Por último, mas não menos importante, foi o argumento sobre os escorpiões. Dentre todos, talvez esse tenha sido o mais fraco. Como explicitado em diversas ocasiões, o habitat de escorpiões são entulhos, lajotas, tijolos, fendas, cemitérios… De árvores não nascem escorpiões, pelo contrário, árvores servem de abrigo para pássaros, como a coruja, e, esses sim, predam os ovos dos escorpiões. Após o episódio da degradação ambiental, portanto, é possível e até provável que o problema da infestação se agrave.

A apresentação desses contra-argumentos e esse debate aconteceu na Câmara no dia 18 de setembro de 2017, antes do corte.

O espaço público e as árvores

Todos nós sonhamos viver em uma cidade com calçadas largas, transitáveis e arborizadas. O registro em vídeo a seguir foi realizado no bairro Santo Agostinho em Belo Horizonte. Naquele bairro, as calçadas têm aproximadamente 6 metros de largura e não são só arborizadas, têm também o piso tátil, pavimento padrão, rampas de acesso e respeitam todos os padrões de segurança e mobilidade.

O problema é que a realidade é bem diferente do sonho. Mesmo na capital dos mineiros, uma cidade que foi planejada, as ruas com calçadas largas e adequadas não chegam a 10% do total. A regra são passeios pequenos, algumas vezes minúsculos e, quase sempre, com obstáculos, fiação elétrica e postes de iluminação.

O que é fundamental que se diga, porém, é que nem o tamanho da calçada e nem a extensão dos prováveis danos causados são motivos suficientes para o assassinato em massa de árvores.

As aparentes dificuldades não impedem que a Prefeitura de Belo Horizonte, e  os próprios moradores, plantem em praticamente todas as ruas da cidade e que, assim, as pessoas tenham mais qualidade de vida e convivam em harmonia com mais verde, pássaros, sombra, beleza e ar puro. Essa realidade se nota no vídeo a seguir:

Dito tudo isso, a conclusão a que podemos chegar é de que o “critério” utilizado em Barroso para o massacre do dia 7/12 foi extremamente duro e rigoroso. Se um “critério” como esse fosse aplicado a uma cidade jardim como Belo Horizonte, quase não sobrariam árvores de pé e a qualidade de vida nesses lugares cairia drasticamente.

posição de Barroso no ranking brasileiro de arborização urbana é o vergonhoso lugar 4689º dentre 5570 municípios. Se continuarmos a destruir o pouco que temos e na velocidade que destruímos, chegaremos à última posição muito brevemente.

Mas por que, então, uma medida tão drástica e tão prejudicial ao bem e ao espaço público foi adotada em nossa cidade? Refletir sobre esse tema pode nos ajudar a melhorar a nossa política, a nossa democracia e nos fazer amadurecer enquanto sociedade.

O espaço, o bem público, as pessoas, a sociedade e os políticos

Um bem público é um bem indivisível e que tem o seu “consumo” aberto a todos. São exemplos de bens públicos: o show de fogos de artifício do Réveillon, o carnaval de rua, a segurança pública, uma praça, o ar puro que respiramos… Os bens públicos, é possível notar pelos exemplos, são essenciais para a vida em coletividade e também para o nosso bem-estar individual.

Algumas vezes, a forma como esses bens públicos são ofertados ou assegurados pode impactar algumas pessoas de forma desproporcional. Pensemos, por exemplo, nos moradores do centro de Barroso que têm que conviver com o barulho e o incômodo das festividades até o fim da madrugada para que todos tenham o seu momento de lazer, cultura e diversão garantidos.

O caso das árvores do cemitério não é diferente. Ainda que a sua existência fosse um verdadeiro pesadelo ou um transtorno absurdo para alguns moradores da redondeza, a sua preservação continuaria fazendo sentido, justamente pelo seu caráter de bem público e pelos seus benefícios para toda a sociedade e para o planeta terra.

Assim, a destruição das árvores dá indícios de quatro possíveis disfunções da nossa sociedade sobre as quais vale a nossa reflexão: 1) a nossa dificuldade de lidar com possíveis custos individuais desproporcionais na provisão de bens públicos; 2) a nossa incapacidade de enxergar a natureza como bem público; 3) a dificuldade do nosso sistema político em filtrar demandas e ser o guardião dos bens públicos 4) a nossa inépcia, enquanto sociedade, de nos mobilizarmos em defesa daquelas coisas que nos são importantes.

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  • Individual e coletivo

O individualismo é um traço da sociedade brasileira e não seria diferente em Barroso. Nesse caso específico, o incômodo de alguns moradores gerou um resultado desastroso para toda uma cidade. Imaginemos agora se a “moda pega”. O que aconteceria com Barroso se ninguém mais se dispusesse a morar, por razões de segurança, perto do batalhão da polícia militar ou da cadeia, de uma escola barulhenta ou de um bar que toca música ao vivo à noite, da praça onde acontecem as festividades públicas ou da exposição… Em parte, talvez, esse comportamento não tenha se difundido (ainda?) e, por enquanto, só tenha afetado as árvores por conta da nossa percepção sobre o meio ambiente e a natureza.

  • Natureza como bem público

A preocupação ambiental é algo muito recente nas nossas sociedades, em todo o mundo, não só no Brasil. Enquanto a maioria das crianças já entendem o quão fundamental é a preservação da natureza, a maioria dos adultos tem dificuldades de enxergar essa realidade. Por enquanto, infelizmente, árvores são (mal)tratadas como um capricho ou um “enfeite”. No futuro, porém, essa realidade tende a mudar. Quando todos formos capazes de entender a natureza como um bem essencial à saúde pública, nós ficaremos tão chocados e transtornados com uma rua sem árvores quanto hoje ficamos com uma rua sem saneamento básico, por exemplo.

  • Demandas e sistema político

No episódio em destaque ficou nítida a incapacidade do sistema político da nossa cidade (situação e oposição) em dar uma resposta adequada ao dilema. No mundo ideal, os agentes políticos atuam como guardiões do interesse mais geral da sociedade. Infelizmente, a busca por atender posições individuais em detrimento do coletivo não é nenhuma novidade em Barroso. No passado, quantas vezes vimos prefeitos doarem lotes em locais impróprios ou bairros crescerem de forma irregular e diante das vistas grossas do poder público?

A política é a arte do diálogo e do entendimento. Quando passa a funcionar na base do “quem grita mais leva”, o risco que corremos é de transformar a política em uma balbúrdia onde ninguém consegue se entender.

  • O papel da sociedade

Por último, e em decorrência dos pontos anteriores, passa a ser cada vez mais importante a mobilização social. Se todas as pessoas que se indignaram com o corte tivessem se manifestado antes, certamente a tragédia poderia ter sido evitada. É verdade que a medida surpreendeu a muitos, porém, isso não pode servir de atenuante. O assassinato já era uma demanda antiga e essa possibilidade já existia há anos.

Resistimos o quanto pudemos e da forma como pudemos. Logo, resta o chamado para que todos nós prestemos mais atenção ao que se passa na cidade e que nos manifestemos sempre que algo acontecer contra o interesse público.

Autocrítica e considerações finais

Por último, e para concluir o post, vale também uma autocrítica. A Campanha “Plante Uma Árvore” acontece há 17 anos em Barroso e hoje é flagrante a sua incapacidade de mobilizar toda a sociedade e fazer da natureza um valor e uma bandeira universal dos barrosenses.

Se assassinatos como o do dia 7/12 continuarem acontecendo, todo o esforço terá sido e continuará sendo em vão. É possível, inclusive, que todo esse processo doloroso tenha sido uma reação de algumas pessoas, ainda que de forma inconsciente ou emocional, contra o formato da campanha e/ou a postura de suas lideranças.

Assim, nós colaboradores e líderes precisamos urgentemente de renovação e reflexão sobre essa realidade. Por isso, pode ser importante rever métodos e formas de comunicação. Em última instância, ganhar alguém para alguma causa é um esforço que não combina com ansiedade ou arrogância, pelo contrário, demanda humildade e paciência. A Campanha já deu e poderá seguir dando bons frutos. Para que isso aconteça é necessário não só plantar árvores, mas educar homens e mulheres, de todas as idades.

Quem planeja a curto prazo deve cultivar cereais; a médio prazo deve plantar árvores; a longo prazo, educar homens.” (Kwantsu)

por Antônio Claret