E A ÁGUA? VAI ACABAR?

rio doceImagino que muitos de nós façamos essa pergunta ou pelo menos pensamos sobre o assunto.

A resposta a essa pergunta não é simples, por que responde-la envolve vários aspectos ambientais, econômicos, políticos e climáticos, mas vamos explorar o assunto, e isso irá ajudar a compreender melhor a problemática.

É fato que as últimas secas afetaram negativamente os recursos hídricos do sudeste brasileiro, mas não é só a seca a responsável.  Esses períodos de estiagem “anormal” é resultado de dois fatores: o desmatamento na Amazônia e as alterações climáticas.

Mas por que os desmatamentos na Amazônia afetam o sudeste do Brasil?

Na verdade, não só afeta o sudeste, mas todo o planeta. Isso ocorre por que a umidade produzida diariamente pela Amazônia é tamanha, que afeta todo o globo. Essa umidade produzida se desloca para o pacífico, mas encontra os Andes como barreira física, e isso então desloca a umidade para o sudeste e provoca as chuvas, mas nos últimos 45 anos a Amazônia perdeu 30% na sua área, e que por consequência diminuiu a quantidade de umidade produzida, portanto essas estiagens serão mais frequentes, e devem se intensificar por que o desmatamento na Amazônia ainda é brutal, e devemos perder outros 20% até 2050.

O segundo fator da seca é consequência direta das mudanças climáticas, que são resultado do aquecimento global, que afeta as correntes oceânicas e atmosféricas, e isso muda o clima, e gera fenômenos como El niho e la niha, que afetam ainda mais as correntes atmosféricas.

Além desses períodos de seca “anormais”, que irão se repetir com maior frequência, outro problema é a destruição do Cerrado Brasileiro, que ocupa boa parte do sudeste e centro oeste do país, e onde se localiza muitas nascentes de rios importantes que abastecem as grandes cidades de SP e MG. A destruição do Cerrado é resultado do cultivo de soja que se iniciou a 30 anos e continua se expandindo.

Apesar dessas informações, talvez o leitor esteja se perguntando, e Barroso como fica na história toda?

Bom, as estiagens nos afetam também, e isso é perceptível. Já o nosso principal curso de água, o rio das mortes, e os córregos e nascentes estão definhando.

Definhando por quê?

Porque as florestas ciliares (aquelas que protegem o leito do rio, e garante volume e qualidade) praticamente viraram pasto, e não há projetos para recuperação das mesmas, e além disso, o esgoto é liberado no rio, não há informação aos proprietários rurais de como protegerem as nascentes,  e boa parte da população está alheia a esses problemas.

O que fazer para diminuir o risco de racionamento de água em Barroso?

Primeiro, a população precisa economizar, não admissível lavar ruas e calçadas como ainda se vê na cidade; é necessário estabelecer uma política para resguardar e recuperar o rio das mortes e afluentes; é necessário poder público e privado investir em ações ambientais; trazer essas questões ambientais para as discussões nos mais diversos ramos da sociedade, como esse jornal está fazendo criando esse espaço.

Plantar arvores se tornou uma ação necessária para a nossa qualidade de vida, e proteger o rio das mortes é a garantia que não vai faltar água na sua casa.

Não se pode mais manter um modelo econômico, que é praticado em todo o planeta, e que não é sustentável, pois problemas ambientais geram pobreza, fome e violência, palavras do Papa Francisco em sua encíclica “sobre o cuidado da casa comum”.

Veja a tragédia do Rio Doce, só quem conhece o rio, como eu tive o prazer de coletar em suas florestas ciliares, que tem dimensão da tragédia ambiental e humana, por que além das perdas de vidas e materiais, a morte de um ecossistema gigante, tem-se também o comprometimento da pesca e toda a economia de subsistência envolvida, a falta de água em muitos municípios, que a mídia não retrata de forma plena.

Espero que possamos resgatar o rio das mortes antes de ficarmos sem água em nossas casas.

 

Por Marcos Magalhães de Souza, Biólogo