‘Deu pra sentir ele me encoxando’, diz paciente que denunciou médico após atendimentos em Juiz de Fora

A jovem de 23 anos que denunciou o médico e ex-vereador de Juiz de Fora, José Tarcísio Furtado, por comportamento inapropriado no último sábado (28) explicou como foram as consultas que teve com o profissional. De acordo com o relato dela, o médico de 78 anos a tocou de forma maliciosa no Hospital São Vicente de Paulo.

Nesta segunda-feira (30), o médico se defendeu das acusações. “Eu a atendi como atendo todas as outras pessoas. Já atendi mais de 100 mil pessoas até hoje, mais de 40 mil partos, mais de 20 mil cirurgias. Será que agora, beirando os 80 anos de vida, é que eu vou fazer uma besteira”, indagou.

A assessoria da unidade de saúde informou que foi aberto procedimento administrativo contra o médico, que foi afastado das funções ambulatoriais ligadas à instituição. No entanto, o profissional usa as dependências do hospital para atendimentos particulares, que estão mantidos.

Ao MGTV, a jovem contou que foi até a unidade de saúde na última quinta-feira (26) e teve a impressão que o médico teria lhe tocado no seio durante um exame.

“Na hora de escutar meu coração, ele passou levemente a mão no meu peito. E eu achei que tinha sido sem querer, um engano. Fui para casa pensando nisso, mas pela feição dele, pela forma como ele me tratou, achei que não tinha sido nada a ver, que foi sem querer mesmo e deixei passar”, contou.

Ela disse que ficou constrangida em fazer a reclamação e, na tarde de sábado (28), voltou ao mesmo hospital e foi atendida novamente pelo médico anterior. Segundo o relato da jovem, o idoso tocou no corpo dela de forma maliciosa novamente.

“Na hora de ouvir meu coração, ele já colocou a mão dentro da minha blusa, não fez questão nenhuma de esconder que estava passando a mão no meu peito, me pediu pra levantar (…) e aí quando eu virei de costas, ele começou a alisar minha barriga enquanto escutava meu pulmão até o momento em que ele me puxou e pressionou o corpo dele contra o meu”, narrou. “Deu pra sentir ele me encoxando. Foi a hora que eu saí, e aí ele me virou de lado, me deu uma encoxada e saiu. Nessa hora eu já estava paralisada, não conseguia nem responder mais”, afirmou a jovem.

Ela disse no BO da Polícia Militar (PM) que ficou constrangida com a situação, saiu da consulta e foi até a recepção do hospital, solicitando o comparecimento de um responsável para reclamar.

A atendente informou que só a assistente social poderia atendê-la, mas, por ser final de semana, não havia ninguém de plantão. A paciente então optou em ir até o posto policial do Bairro São Mateus, onde solicitou o registro do caso.

O caso foi registrado como “importunação ofensiva ao pudor”, que é uma contravenção penal.

O médico recebeu voz de prisão no mesmo dia e foi encaminhado para a Delegacia de Plantão de Polícia Civil, no Bairro Santa Terezinha. Foi feito um Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO) e uma audiência foi marcada no Juizado Especial, em agosto. Os envolvidos foram liberados em seguida.

Outros casos envolvendo o médico

No dia 26 de janeiro deste ano, a PM registrou outro caso de importunação ofensiva ao pudor contra o mesmo médico e no mesmo hospital.

Na ocasião, a paciente, de 19 anos, relatou que estava com suspeita de sinusite e foi atendida por José Tarcísio Furtado. Ela afirmou que o médico a pediu para ficar em pé para ser examinada e encostou no corpo dela pelas costas, acariciado os seios e apertado a cintura para escutar o pulmão.

A jovem disse à polícia que tentou se desvencilhar para se sentar e que ele a impediu de fazer isso até terminar o exame.

Ainda segundo o relato da paciente, o médico perguntou onde ela morava, qual meio de transporte utilizava para ir à faculdade e o horário das aulas. A jovem contou que ficou assustada com a atitude do profissional e só procurou a polícia no dia seguinte.

Em 11 de outubro de 2016, a PM registrou uma ocorrência de “outras infrações contra a pessoa” contra Furtado. Na época, uma jovem de 18 anos contou que passou mal no trabalho e buscou atendimento no Hospital Albert Sabin.

No local, foi atendida por ele, que estava no plantão. Ela disse que durante os exames ele a apalpou em partes íntimas, o que ela entendeu como um caso de assédio sexual.

No Hospital Albert Sabin, há um registro de “infrações contra a pessoa”, em 2016. A diretoria da unidade informou que “está realizando levantamento junto ao setor jurídico para apurar o andamento da ocorrência registrada no dia 11 de outubro de 2016 e irá se pronunciar oportunamente”, conforme nota.

No dia 3 de abril de 2012, houve um caso registrado como estupro na PM. Uma jovem que tinha 19 anos contou que foi ao Hospital São Vicente de Paulo com a avó, que entrou como companhia no consultório.

Ela relatou que o médico pediu que ela retirasse as roupas no banheiro. Enquanto a jovem se despia, ele entrou no recinto alegando que iria acender a luz.

Conforme o depoimento da jovem, quando ela se deitou na cama para o exame, o médico não a cobriu, a acariciou nos seios e nas pernas e apertou os seus braços. Ela questionou a atitude dele, que não esclareceu na ocasião.

Sobre as outras denúncias, o médico também negou que elas tivessem ocorrido.

Furtado é médico ginecologista foi vereador em Juiz de Fora em duas legislaturas: entre 1993 e 1996 e de 2009 a 2012.

CRM não investiga Furtado

Também nesta segunda, o diretor do Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais (CRM-MG), José Nalon, disse que o caso do último sábado ainda não chegou ao conselho e que atualmente o órgão não tem qualquer tramitação contra o profissional.

“Se houver indícios de infração, será aberto um processo ético profissional, que será julgado. Do processo, pode ocorrer a condenação ou a absolvição. Em caso de condenação, cabe ainda recurso ao Conselho Federal de Medicina”, explicou.

G1