Dia 27 de agosto de 1997, há 20 anos, depois de inúmeros debates com a sociedade e diversas reuniões ordinárias, a Câmara Municipal de Barroso, com dez votos a favor, um contra e uma ausência, aprova a instalação da Copasa na cidade. No contrato, que tem duração de 30 anos e vai até 2027, água captada e tratada, perspectiva de melhorias e investimentos da companhia no município.

Mas nem toda fonte tem água límpida. Se por um lado a qualidade da água que os barrosenses consomem melhorou, por outro, a falta dela, vinte anos depois, continua sendo um dos maiores problemas com a comunidade que todo ano sofre com os mesmos dilemas. “Não adianta, todo ano é a mesma coisa. Aqui em casa, por ser mais alto, não tem um ano que não falte água”, diz a moradora Maria Célia, do bairro Bedeschi. “Será senão conseguem fazer um trabalho onde guardam água para os momentos de seca?”, questiona a moradora que acrescenta que, aconteça o que acontecer, a conta de água nunca deixa de chegar. “Engraçado é que, mesmo sem água aqui em casa, a conta de água chega no dia certinho”, ironiza.

E é justamente quando os números e cifrões entram nos cofres que a incoerência da empresa no município aumenta e desperta a ira dos moradores, ou seja, na contra mão dos problemas enfrentados ao longo dos anos, a empresa estaria batendo recorde, ano após ano, de arrecadação no município. Segundo levantamento feito pela reportagem do Barroso EM DIA, baseado em informações como média de pagamentos por residência, a empresa teria arrecadado no ano passado cerca de R$3 milhões. Uma crescente arrecadação que vem subindo ano após ano, inclusive em 2017.

Com tamanha arrecadação e diante de recordes e mais recordes, a empresa poderia resolver parte do problema fazendo investimentos no município. A grande esperança de melhora no abastecimento de água em Barroso seria a conclusão da Estação de Tratamento de Água do Rio Freire, localizada às margens da estrada que liga a cidade à zona rural do Caetés, que carece há anos dos investimentos necessários para ser concluída e colocada em funcionamento.

De acordo com a Assessoria de Comunicação da Copasa, a empresa está montando o processo de licitação para implantação da nova captação, adequação da Estação de Tratamento de Água com capacidade de tratamento de 80 litros por segundo, além da ativação dos dois reservatórios metálicos de 500m³ cada. A previsão é que a obra seja concluída em 2018 e possa atender a cidade de Barroso nos próximos 20 anos, dependendo do crescimento da população local. A obra está paralisada há mais de 10 anos. Fato é que, enquanto 2018 não chega e a promessa da Copasa não se concretiza, a empresa informa que atualmente a cidade de Barroso é abastecida por três reservatórios centrais, sendo dois com capacidade de 500m³ e um de 900m³, além dos seguintes reservatórios adjacentes: Torre Celular (180m³); Josefina Coelho (130m³); Rosário (50m³); João Bedeschi (180m³); Praia (130m³) e Europa (130m³). Devido à queda acentuada de vazão dos mananciais, os reservatórios não estão sendo totalmente abastecidos, uma vez que toda a água produzida é imediatamente distribuída à população. Ainda segundo a assessoria, normalmente, as captações da Invejosa e Cangalheiros produzem em torno de 32 e 40 litros por segundo, respectivamente. Devido ao período de estiagem, a vazão da captação Invejosa tem sido de aproximadamente 28 litros por segundo, enquanto a captação Cangalheiros tem apresentado vazão de apenas 4 litros por segundo. Essa produção de água tem sido complementada pelos poços dos bairros da Praia e Jardim Europa, com vazão de 5,5 litros por segundo e 6,4 litros por segundo.

FUNCIONÁRIOS LOCAIS

Em meio ao fogo cruzado, ficam os funcionários do escritório local que recebem pouca autonomia da presidência estadual. Informações dão conta de que eles seriam impedidos de tomar atitudes de remanejamento de água de um bairro para outro, além de sequer poder emitir um simples comunicado alertando a população para a escassez. Uma verdadeira caixa-preta, como intitulou no passado o ex-vereador Jayme Nogueira (PPS), um defensor dos bar-rosenses quando o assunto é a Copasa, ou a falta de investimento por parte dela.

NA MIRA DA JUSTIÇA

Além da insatisfação da população, a Copasa também enfrenta a justiça. A empresa é alvo de pelo menos duas batalhas judiciais na Comarca de Barroso. Em outra grande crise de abastecimento em outubro de 2014, a então prefeita Eika Oka de Melo (PP) decretou Estado de Emergência e entrou com Ação Civil Pública (ACP) contra a empresa, exigindo que a Copasa fizesse os investimentos necessários e que passasse a informar a população sobre rodízios e falta de abastecimento. Três anos depois, a ACP está aguardando decisão da juíza Valéria Possa Dornellas. A audiência de instrução e julgamento está prevista para o dia 23 de novembro deste ano. A outra briga judicial da empresa é com o Ministério Público, através da Promotoria de Justiça de Barroso. Em abril de 2015, foi instaurado inquérito contra a empresa a partir da denúncia de um cidadão sobre a qualidade da água, baseada no Código de Defesa do Consumidor.
ESGOTO

Em meio à crise no abastecimento de água, a reportagem do Barroso EM DIA também levantou informações de que o Governo Municipal avalia a possibilidade de enviar um Projeto de Lei para a Câmara, repassando o tratamento do esgoto para a Copasa. A reportagem ainda apurou que é interesse da empresa assumir o serviço. A assessoria de imprensa da Prefeitura não confirma conversas com a Copasa, mas admite que alguma decisão em relação ao esgoto será tomada em conjunto. “O Município pode sofrer penalidades caso não solucione a questão do tratamento do esgoto,” diz a nota. Em Audiência Pública na Câmara no dia 26 de setembro, o prefeito Reinaldo Fonseca (PSDB) endossou o discurso e afirmou que discussões em torno do tema devem ser iniciadas, mas também sem citar a Copasa.