Barroso, tarde de uma noite qualquer de novembro de 2015, entre beijos e abraços, carícias e afagos, mais uma relação sexual se estabelece. Mais dois corpos se entregam ao prazer. Consumado. O grande problema deste ou do século passado tem sido as consequências destas relações. Naquela noite, exatamente naquela noite, ele, com 25 anos, instigado pelo desejo sexual, se recusa a usar o preservativo que estava ali do lado, bem ao lado da cama e do travesseiro, os dois únicos cúmplices da noite trágica.
“Eu deixei o tesão falar mais alto. Não usei a camisinha que estava bem do meu lado. Sempre fui muito tranquilo. Em toda minha vida sexualmente ativa, tive no máximo umas dez relações sexuais. Eu assumo toda a culpa de minha sorologia positiva. Eu sou o único culpado por ter contraído o vírus. Eu sabia sobre todos os métodos de prevenção e mesmo assim não usei nenhum”, declara.

Pronto. Em questão de segundos, o vírus, que não reconhece cor de pele, religião, estado civil e/ou condição financeira, invade o corpo da vítima barrosense e muda seu mundo dali por diante. Três letras: HIV, Vírus da Imunodeficiência Humana, da sigla em inglês, passam a fazer parte do mundo dele e as consequências começam a interferir em sua vida até então saudável.

“Cerca de um mês depois do ocorrido comecei a sentir meu corpo com fortes sintomas de infecção. Cheguei a ficar internado por cinco dias no Hospital de Barroso, mas infelizmente nenhum médico solicitou o exame de HIV. A suspeita era Dengue, pois havia um surto na cidade na época. Passei todo o ano de 2016 sentindo algo relacionado com a doença. Porém, como a grande maioria, nunca suspeitei de HIV. Então, em janeiro desde ano, resolvi fazer um check up e recebi a péssima notícia”, diz o soropositivo que até então não contou para ninguém sobre a sorologia. “Somente o pessoal do laboratório que fica fora de Barroso sabe de minha sorologia e eu confio muito neles. Fora isso, nunca contei para ninguém. Já pensei muito em assumir minha identidade para todos, mas, por causa do meu serviço, acho que eu sofreria muito preconceito”, relata a vítima acrescentando que fez o teste confirmatório fora da cidade para que seu caso não fosse computado na Secretaria de Saúde de Barroso. “A Secretaria de Saúde é muito omissa em relação a isso. Não fazem campanha. Não focam nestes casos”, diz o portador que participa de um grupo de WhatsApp formado por soropositivos que em sua maioria não se conhecem pessoalmente.

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Diante da descoberta, o maior problema enfrentado pelos portadores tende a ser a aceitação e o entendimento sobre o vírus e suas consequências. Para tentar entender um pouco a infecção, a reportagem ouviu o médico especialista no assunto, Doutor Ângelo Feres, da cidade vizinha de Barbacena. Segundo o profissional, que trabalha há 23 anos com casos como este, o primeiro passo é entender o vírus HIV. “Nas américas predomina a infecção sexual, com vulnerabilidades aumentadas em homens que fazem sexo com homens e jovens de 16 a 25 anos. A infecção pode ser contraída também em contacto com fluidos de risco biológico, como o sangue em acidentes, perfuros cortantes e leite materno. Lembrando que a infecção sexual se adquire no sexo anal, oral ou vaginal desprotegido“, diz. Ângelo ainda fala sobre a melhor forma de prevenção da doença. “Camisinha sempre é a melhor forma de prevenir, mas também existem medicamentos que são tomados por 28 dias após o risco, devendo a primeira dose ser tomada idealmente duas horas após a exposição, podendo ser tomada em até 72 horas”, relata o médico que ressalta que a infecção não tem cura e que a pessoa vive com o vírus para o resto da vida.

Questionado sobre os tabus e pré-conceitos que ainda existem com relação à doença, Ângelo disse que exatamente por isso a prevenção deve ser levada a sério. “Realizar testes rápidos sempre que necessário, depois de 30 dias do risco e antes de se relacionar sem camisinha. Lealdade e fidelidade, adiamentos e abstinência podem fazer parte do pacote de prevenção”, diz o profissional que reforça que um soro positivo em tratamento não transmite o vírus para outras pessoas.

DADOS

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima-se que, só em 2015, 1 milhão de pessoas tenham morrido por causas associadas à doença, e outras 2 milhões tenham adquirido a infecção. Atualmente, há aproximadamente 840 mil brasileiros vivendo com a doença. Estima-se que 112 mil pessoas têm o HIV e não sabe. E mais, outras 260 mil sabem e não se tratam. Em Barroso, de acordo com dados da Secretaria de Saúde do Município, 32 pessoas estão contaminadas com o HIV até o momento. Destas, 14 são do sexo feminino e 18 do sexo masculino. Os números são referentes aos portadores que também são tratados por São João del Rei e Barbacena.

PRECONCEITO

Apesar de ainda não sofrer preconceito, uma vez que a vítima relatada mantém suahiv1 identidade em sigilo, ele conta que é impossível ter uma vida normal após o diagnóstico. “Tive muitos problemas com um primeiro remédio, uma droga fortíssima que me deixava com uma sensação constante de embriaguez, um calor infernal pelo corpo, além de uma crônica e súbita síndrome do pânico. Cheguei a ficar sete dias sem dormir, passando muito mal, sofrendo tudo isso sozinho e tendo que ir trabalhar normalmente. Naquele momento achei que minha vida tinha acabado, mas então resolvi procurar outro médico e mudei a medicação. Senti que minha vida tinha voltado ao normal. Eu não sentia efeito colateral algum. Foi uma esperança a mais”, diz o soropositivo que hoje faz acompanhamento psicológico e psiquiátrico em Belo Horizonte e garante ter uma vida normal. “Traba-lho, saio com os amigos e convivo com familiares normalmente”, relata ele que ainda acrescenta que, como a família desconhece sua condição, ele esconde o medicamento. “Porém, toda vez que chego em casa e vejo minha mãe com cara diferente, vem aquele medo paralisante à tona, vem tão forte que nem consigo abrir a boca para perguntar para ela se está tudo bem. O medo da resposta é cruel. Tem também as vezes em que ela ou a empregada arruma meu quarto. Corro para ver se mexeram no local onde escondo o medicamento. O alívio de não terem descoberto é algo prazeroso, traz uma sensação que nem dá para verbalizar. Agora, imagina passar por todo esse medo praticamente toda vez que chego em casa”, diz.

A verdade é que se ele pudesse apagar aquele amargo novembro da sua vida, já o teria feito. Como é impossível voltar no tempo, o soropositivo, que se dispôs a falar com a reportagem com a condição de anonimato, usa a própria e triste experiência para tentar salvar vidas. “Essa nova geração está bastante descuidada durante o sexo. É uma geração que não viu seus ídolos morrerem de uma doença sexualmente transmissível. Mas o HIV e outras doenças sexualmente transmissíveis estão aí e a prova disso sou eu. O vírus não vê cara, não vê sexualidade, se você é rico, se é pobre, preto ou branco, prostituta ou até mesmo se é uma “santinha” que tem apenas um parceiro. Quando resolvi fazer este depoimento, um dos motivos foi lembrar aos leitores que até mesmo uma cidade com cerca de 20 mil habitantes tem sim soropositivos, EU sou um deles. Eu tenho HIV”, finaliza.

APLICATIVO

Para disseminar conhecimento e informação, foi lançado no último mês de julho, o aplicativo Posithividades. O Aplicativo já conta com mais de cinco mil usuários, sendo que 10% está espalhado por 60 países do mundo. O projeto Posithividades é idealizado como um modelo de rede social, onde há interação e troca de experiências direta entre os usuários, de forma anônima ou não e segura. No ambiente virtual do aplicativo, o projeto traz, também, depoimentos de soropositivos contando suas histórias, notícias atualizadas, chat em grupo ou privado e um guia médico com as principais ONG’s e CTA’s. Informações no site www.posithividades.com.br. O App está disponível para download gratuito.