Algumas ruas da região central da cidade estão afundando

Sábado de Carnaval em Barroso, por volta das 21h, um dilúvio cai sobre a cidade. Além dos problemas relativos à festividade popular, parte do centro, em frente ao palco, ficou interditada. A população se assusta com os destroços que ficam na Praça Salvador da Silva, quando briquetes do piso central foram arrancados pela força da água. E mais, a alguns metros dali, adentrando a Rua Daniel Pantaleão, centro sentido Rosário, uma correnteza carrega cadeiras, enfeites do Carnaval e até uma placa de ferro de trânsito impedido. O caos na rua onde ocorreu este problema já é crônico para o município.

Mas como está a situação por baixo destes briquetes que cobrem as ruas centrais? Qual a real situação das galerias pluviais, o chamado sistema de dutos subterrâneos destinados à captação e escoamento de água pluvial coletada pelas bocas coletoras, na Coronel Arthur Napoleão? É justamente pensando neste problema histórico que a reportagem do Barroso EM DIA foi tentar entender a atual situação por debaixo da terra.

Em contato com uma fonte que trabalha na Prefeitura e prefere não revelar seu nome, a reportagem apurou que diante de alguns reparos feitos nas redes do centro nos últimos anos, a situação de Barroso é alarmante. “As redes de parte da Rua Coronel Arthur Napoleão, Praças Sant’Ana e Salvador da Silva e Rua Daniel Pantaleão foram feitas na época do ex-prefeito Genésio Graçano no formato de galerias, que foram construídas com tijolos de barro. Devido ao tempo, parte desses tijolos estão desgastados podendo causar afundamento nas ruas”, diz o funcionário.

Coincidentemente, na última semana, os barrosenses se depararam com um afundamento na Coronel, esquina com a Rua Joaquim Ferreira, a Rua da Brasileira. Uma placa de trânsito impedido, mais faixas de isolamento foram colocadas no local para evitar o contato de veículos e pedestres com o solo que está afundando. “Esta não é a primeira vez que acontece este problema aqui na Coronel. Há algum tempo, mais para cima, já tivemos também este tipo de afundamento em outro lugares”, diz a moradora do centro Célia da Silva.

PREFEITURA

Em contato com o Secretário de Obras do Município, José Maria, o mesmo garantiu que o problema será sanado nos próximos dias. Ainda segundo ele, não se trata da região onde existem as galerias, mas o problema está relacionado com manilhas que quebraram e, portanto, trouxeram transtorno para os pedestres e motoristas.

“A região das galerias são mais embaixo, mas ao que indica aquela questão ali é voltada para uma manilha que quebrou”, diz. No que diz respeito a este trabalho mais aprofundado e estudado o mesmo garantiu que será necessário um entendimento maior do problema e um investimento maior também, mas que neste momento a Prefeitura não dispõe dos valores para investimentos.

“Na Rua Maria José de Melo também, ou seja, estamos nas medidas paliativas, mas o certo mesmo é um novo asfalto, uma nova estrutura. Estamos estudando a situação”, diz José Maria. (Até o fechamento desta matéria para a edição 183 do jornal impresso, às 13h do dia 01/03 o problema ainda não havia sido solucionado na Rua Coronel Arthur Napoleão).
A fonte da Prefeitura também garante que outro problema é que as galerias citadas foram construídas na época em que a cidade era muito menor. “As casas não tinham seus quintais todos cimentados e nem todas as ruas eram pavimentadas. Hoje com essas mudanças, as galerias não comportam as águas das fortes chuvas, causando transtornos como o do Carnaval”, diz.

O informante ainda esclarece que ao longo do tempo essas galerias receberam diversas ligações irregulares de rede de esgoto, o que causa o mau cheiro no centro. “É um problema muito sério que infelizmente só tende a se agravar. Problema este que requer uma atenção do Executivo, mas que também demandará valores elevados para a solução”, finaliza.

PROFISSIONAL

A reportagem foi ouvir o Engenheiro Civil, de Segurança do Trabalho, Sanitarista e do Meio Ambiente, Lutiane de Souza, que afirma que quando se fala de redes de galeria de águas pluviais, deve-se entender que a ABNT indica que os tubos deverão ser assentados e fabricados a uma ordem de grandeza de 50 anos. Confira a entrevista na íntegra:

  • Essas redes pluviais estão de fato ultrapassadas, arcaicas?

Quando falamos de redes de galeria de águas pluviais, devemos entender que a ABNT indica que os tubos deverão ser assentados e fabricados a uma ordem de grandeza de 50 anos. Mas sabemos que a galeria de águas pluviais do centro da cidade de Barroso é uma galeria mista que recebe águas pluviais e esgoto, e que a vida útil dos tubos de esgoto “ainda é um mistério a se desvendar” e depende da agressividade do meio que vai atuar sobre o concreto. O que é um perigo, porque tubos enterrados para coleta de esgoto em centros urbanos podem entrar em colapso, desestabilizando o entorno e gerando buracos grandes em vias públicas. Respondendo a pergunta, sim nossas galerias de águas pluviais/esgoto no centro da cidade de Barroso, está ultrapassada, simplesmente pelo fato que a rede de esgoto deveria ser separada da rede pluvial. Além do mais, quando a rede foi construída no centro de nossa cidade as áreas impermeabilizadas (construções) eram bem menores do que é hoje, com isso a rede não trazia os problemas que enfrentamos hoje, sendo que a taxa de ocupação do solo na bacia de contribuição da região central da cidade é alta.

  • Porque estes briquetes, no caso do centro, levantam?

As lajotas sextavada (popularmente conhecida por briquetes) levantaram em alguns pontos no centro, por dois motivos pontuais notados, o primeiro foi por causa da velocidade de escoamento das águas pluviais pela forte chuva e pela contribuição de algumas boca-de-lobo (bueiros) que foram obstruídas por moradores e comerciantes da região pelo motivo de gerar odor por causa da contribuição do esgoto sanitário e com isso descalçou a base e levantou as lajotas somadas com o refluxo da rede, tal velocidade era tamanha que movimentou mesas, placas de sinalização, dentre outros objetos. O outro motivo foi que pela galeria possuir pontos frágeis em sua junção ela desestabilizou o entorno gerando buracos na via.

  • Porque aquela região da Rua Pantaleão sempre tem enchentes?

Historicamente, moradores da Rua Pantaleão sofre com as enchentes, sendo que muitos comerciantes daquele local, possui até comportas para deter as águas provindas da chuva. Sobre a questão sobre a referida rua sempre ter enchentes se deve visto que a rua encontra-se no nível mais baixo e além do mais é formada uma bacia entre a Praça Salvador da Silva e a Ponte que interliga o Centro e o Bairro do Rosário, e a galeria que coleta a água possui uma inclinação muito pequena e dimensionada de forma inadequada, o qual as águas não possuem um escoamento adequado para aquela região.

  • Onde são os locais mais problemáticos?

Pontualmente, a região mais crítica está situada entre a Praça Salvador da Silva e a Rua Daniel Pantaleão Ferreira, onde é o ponto mais baixo de toda bacia de contribuição.

  • O que poderia ser feito para resolver estes problemas?

Toda rede precisa ser realizada inspeções pontuais para a rede seja novamente dimensionada ou mesmo substituída por uma nova rede de captação, devendo levar em conta toda rede de drenagem pluvial deve ser dimensionada hidraulicamente com base em critérios técnicos e hoje, existem diversos processos mundialmente conhecidos. Todos estes levam em consideração a área da bacia de contribuição, um período de retorno compatível com a importância técnica de cada situação em análise, a intensidade da chuva (dada por uma equação bem determinada para a Região em estudo), os níveis de cobertura vegetal ou não da região, enfim, uma série de fatores. Na falta de modelos, são utilizados apenas os recursos empíricos que envolvem a especificação do cimento com resistência a sulfatos e o nível de absorção máxima.

  • Em média, teria que ser feito um investimento de qual valor para resolver isso? 

Sem fazer um levantamento preciso e pontual de toda rede, fica difícil a precisão do valor de investimento, por alto, este valor de investimento para substituição da rede nos pontos mais críticos gira em torno de um valor de Um Milhão e Meio de Reais, devendo lembrar que isso envolve, a retirada do piso existente, implantação da nova rede de captação de água e esgoto, compactação do leito e sub-leito e posteriormente a reestruturação do pavimento.

  • Moradores correm risco com o que está acontecendo?

Podemos dizer que sim, pois poucos sabem que a rede além de trazer diversos transtornos para moradores e comerciantes locais, esta rede passa abaixo de muitas construções daquela região, o que é um perigo, porque tubos enterrados para coleta de água/esgoto podem entrar em colapso, desestabilizando o entorno e gerando buracos grandes, trazendo sim perigo aos moradores locais.