A bolsa que resgata pessoas e conserva florestas

Entre 2014 e 2015 coordenei um projeto realizado no norte de Minas Gerais, no intuito de
conhecer a fauna de insetos e resgatar o conhecimento popular sobre esses animais em área de Mata Seca, ecossistema incrível, o qual na época da seca 90% das plantas perdem suas folhas, e tudo parece morto, mas quando chegam as chuvas, a vegetação se torna verde (Figura 01), um milagre fisiológico. Chove pouco, e confesso que ver a chuva lá é digamos uma experiência comovente, não sei explicar bem os sentimentos envolvidos num evento climático comum.

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Figura 01: A mata seca verde na época das chuvas (A) e no mesmo local, agora a mata desprovida de folhas no período de estiagem (B) no Refúgio da Vida Silvestre do rio Pandeiros, Norte de Minas Gerais (Foto – Brunismann, A. G.)

Contudo não vou reportar aqui a diversidade biológica, mas compartilhar uma experiencia
social, humana e ambiental.

Na viagem, que do sul de MG, onde trabalho, até lá são 18 horas de carro, e ao longo do
percurso se vê a mudança de vegetação, do clima, da paisagem é muito bacana, e aí se entende a expressão que “Minas são muitas”.

Na primeira viagem eu tinha a concepção que iria me deparar com muita pobreza e grandes
desmatamentos para produção de carvão, o que coloca em risco um dos ambientes menos estudos do estado, mas que é praticado a décadas de forma criminosa.

Trabalhamos em comunidades em que as estradas são arenosas, um calor quase insuportável, longas retas sem fim, escolas distantes e com muitas dificuldades estruturais.

Mas para a minha feliz surpresa, haviam muitas casas simples, mas todas confortáveis, muito diferente daquilo que imaginávamos, as crianças estavam na escola, as pessoas felizes, haviam investimentos na estruturação de cooperativas para fortalecer práticas agrícolas sustentáveis (Figura 02), e para explorar a mata de forma racional, havia uma redução do desmatamento, as pessoas viam na mata de pé uma oportunidade em substituição ao carvão.

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Figura 02: Equipe do IFSULDEMINAS em visita as comunidades onde se produz farinha de mandioca no Norte de Minas Gerais (Foto – Souza, M. M.)

Qual a causa dessa revolução socioambiental?

Descobri que foi a bolsa família. Isso mesmo a bolsa família, a qual tanta gente crítica e é contra, pois esse programa de transferência de renda mudou o panorama que parecia impossível de se mudar, e que também resgatou milhões da linha da pobreza e desnutrição (relatório da FAO 2015).

A bolsa colocou as crianças na escola, melhorou a condição de vida humana, e mostrou que a conservação é melhor que a destruição, que a dignidade é melhor que o trabalho escravo da carvoaria.

Dando as pessoas novas perspectivas e oportunidades os impactos sobre a mata seca
diminuiriam um pouco, não sei se isso foi pensando pelo Governo, mas refletiu positivamente.

Nunca conheci pessoas tao receptivas como aquelas, eram acolhedoras.

Apesar do calor e da poeira, o rio pandeiros que corta a área é algo espetacular (Figura 03), não conheço um rio tão bonito.

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Figura 03: Rio Pandeiros no Refúgio da Vida Silvestre do Rio Pandeiros, Norte de Minas Gerais

O norte de Minas Gerais com suas matas secas é um ambiente paradoxal, duro e belo, seco e verde, e o patrimônio humano é impar, e creio que seja assim desde a pré-história rsrsrsrsrs (Figura 04 – Parque Nacional Cavernas do Peruaçu com suas pinturas rupestres).

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Figura 04: Pinturas Rupestres do Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, Norte de Minas Gerais (Foto – Milani, L. R.)

Obvio que o norte do estado ainda carece de muitas ações, ainda há desmatamento, e muita
dificuldade, mas há esperança.

Quanto aos bichos???? Essa é outra história para outo texto…